Mande
notícias
Dom Luciano Mendes de Almeida.
Obrigado pelo seu exemplo!
José
Comblin *
Com a morte de dom Luciano
a Igreja católica perde um homem insubstituível. A
vida é assim: todos passam tempo nesta terra e têm
que deixá-la. Há mortes que nos deixam um grande vazio.
O desaparecimento de dom Luciano cria um vazio que vamos experimentar
durante muitos anos: Se Dom Luciano estivesse aqui!... Por exemplo,
em Aparecida na V Assembléia do CELAM a sua ausência
será sentida cruelmente. Ele foi o organizador verdadeiro
de Puebla que nos deixou o que nos deixou graças a ele. Conseguiu
fazer de uma reunião cheia de incertezas, a luz que nos ilumina
até hoje e nos iluminará durante muitos anos ainda.
Em Santo Domingo ele salvou o que se podia salvar. Ele vai fazer
falta. Pois ele é uma dessas personalidades que ninguém
pode substituir. Enfim poderá interceder por nós,
porque não precisamos esperar decretos de beatificação
ou de canonização. Sabemos que é um Santo.
Vamos recorrer a ele nas nossas necessidades, sobretudo no meio
das dificuldades vividas na Igreja.
Dom Luciano foi uma das personalidades
mais marcantes do século XX, uma dessas personalidades que
marcam uma época. A sua vida foi tão rica de ensinamentos
que ela constitui uma referência permanente. Tinha tantas
qualidades, tantas capacidades, tantos talentos e tudo isso reunido
numa vida tão simples na sua riqueza.
Era visível desde o
primeiro olhar que se tratava de uma personalidade sumamente inteligente
e brilhante. Tinha um dom de intuição extraordinária,
uma capacidade de síntese que fazia dele a pessoa que salvava
as reuniões e sabia propor conclusões iluminadoras.
Era a pessoa ideal para presidir reuniões. No entanto, ele
se apresentava com tanta modéstia, tanta simplicidade, tanta
humildade como se tivesse que pedir perdão por tanta superioridade.
Não era assim. Ele não pretendia esconder os seus
dons. Sabia intervir com autoridade tranqüila, essa autoridade
que todos seguem com entusiasmo porque reconhecem nela a luz do
Espírito. Nada nele era fingido. Jamais procurou a gloria
pessoal, jamais pensou em atrair os olhares ou pedir felicitações.
Jamais defendia uma tese. Bastava explicar e todos entendiam. Não
precisava fingir porque era uma personalidade totalmente aberta.
O que mais chamava a atenção
era a sua disponibilidade, a permanente preocupação
por servir, ser útil, ajudar. Em lugar de fugir dos problemas,
como fazem tantas autoridades, ele ia ao encontro deles. Quando
sabia de um caso de injustiça, de opressão ou de abandono
dos pobres, ali estava ele imediatamente. Na frente da luta e nunca
buscando desculpas edificantes como fazem tantas autoridades. Nada
tinha de líder popular e jamais procurou a popularidade o
que era bem o contrário da sua personalidade. Estava ali
na frente da massa dos pobres com toda simplicidade, como se fosse
nada mais do que um no meio dos outros. Mas todos sentiam a sua
presença e sentiam que debaixo de aparências fracas
havia uma imensa força, que era na realidade a força
de Deus. A concentração do povo nos seus funerais
foi um sinal da imensa confiança e da grande admiração
que suscitava, porque era a força de Deus no meio do seu
povo. Como dizia s. Paulo era a maior força na maior fraqueza.
Era filho de uma família
importante, onde correm rios de inteligência, o que lhe facilitou
o acesso a uma cultura mais elevada. Ao mesmo tempo a família
preparou-o para ser uma personalidade privilegiada que não
precisava fazer esforços para ter autoridade porque a autoridade
lhe era natural. Esta origem devia ter contribuído para que
ele fosse tão natural no serviço como se isso não
lhe custasse nada. No fundo era totalmente seguro de si a tal ponto
que nunca sentia a necessidade de olhar para si mesmo, de se preocupar
pelo desempenho da sua missão. Não precisava de aprovação.
Tudo era tão claro.
Devemos supor que tinha os
seus momentos de sofrimentos. Os sofrimentos físicos, em
conseqüência do acidente, todos sabemos. Mas deve ter
experimentado alguns sofrimentos mais íntimos, por exemplo,
pelas humilhações que teve que suportar. Porém,
a sua confiança na sua missão e na sua capacidade
com a graça de Deus eram tão fortes que não
era abalado tal a sua autosegurança. Isto lhe permitia enfrentar
todos os problemas com uma virtuosidade excepcional. Prestava com
tanta naturalidade inumeráveis serviços como se fosse
fácil e natural. Era incansável, nunca dava a impressão
de estar cansado, salvo quando se encontrava dormindo nas reuniões
ou nas viagens, porque não dormia de noite e o sono estava
aí reclamando.
Era de uma simplicidade tão
grande. Um dia eu estava sentado ao lado dele num avião e
ele me disse simplesmente que nunca tinha sido capaz de vencer o
medo do avião e rezava o terço para se dar coragem.
Isto não impediu que passasse tantos dias da sua vida viajando
de avião. Curiosamente também dom Manuel Larraín,
fundador do CELAM e dom Helder tinham medo de viajar de avião
e deviam viajar sem cessar.
Com tudo isso dom Luciano
viveu uma vida de amor. Amou muito e também foi muito amado.
Poucos talvez tenham sido tão amados por tantas pessoas de
tantos grupos humanos diferentes. Era tão humano que não
se podia não amá-lo.
Agora estamos aguardando uma
biografia. Escrever uma biografia de uma pessoa que teve tanta atividade
na sua vida não será fácil. Oxalá que
se apresente um historiador ou um bom jornalista para começar
logo, quando ainda há muitas testemunhas das diversas fases
de uma vida vivida em vários lugares do Brasil e do mundo.
A tentação vai
ser aquela mesma de que está sendo vítima o padre
Hurtado no Chile. Uma vez canonizado, fizeram dele uma representação
convencional, em que a sua ação real e concreta desaparece
e o que se venera nele são as virtudes convencionais. Um
cardeal chileno dizia que o que mais marcou na vida de padre Hurtado
era a sua obediência, porque um dia quando era assessor nacional
da juventude universitária católica foi demitido pelo
bispo responsável do setor e ele se submeteu. Com isso toda
a ação social de padre Hurtado desapareceu. Que não
nos façam de dom Luciano um retrato convencional de santo
que colecionou todas as virtudes tradicionais de tal sorte que dom
Luciano fosse um a mais na lista de todos os santos iguais e convencionais.
Que não seja tirado do seu contexto histórico, mundial
e eclesial, daquilo que foi a matéria da sua vida e o desafio
que soube enfrentar.
*
Teólogo
Fonte: http://www.adital.com.br