Departamento Arquidiocesano de Comunicação da Arquidicoese de Mariana


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Multidão dá adeus ao pai dos pobres



        
Poucos conseguiram conter as lágrimas durante a cerimônia que marcou o sepultamento de dom Luciano. A missa, presidida pelo presidente da CNBB e arcebispo de Salvador (BA), cardeal Geraldo Majella Agnelo e concelebrada por cerca de 40 bispos e mais de 200 padres, começou por volta das 10:30h. Uma multidão, consternada e emocionada, cantou e rezou por aquele a quem todos chamam ‘pai dos pobres’.
        
Antes da missa, ainda no Santuário, o corpo do arcebispo foi visitado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governado de Minas, Aécio Neves. Ambos usaram da palavra para enaltecer o arcebispo de Mariana. Na comitiva do presidente, além de sua esposa, dona Marisa Letícia, também estavam os ministros Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), Hélio Costa (Comunicações), Walfrido Mares Guia (Turismo) e Luiz Dulci, secretário da presidência.
        
Com atraso de quase uma hora, o corpo foi carregado pelos padres e acompanhado por milhares de fiéis que queriam ver pela última vez o pastor dos excluídos. Sob o toque fúnebre da banda XV de Novembro e a proteção dos Dragões da Inconfidência, o cortejo seguiu para a Praça da Catedral onde aconteceu a missa.
        
Exaltando as virtudes de dom Luciano, o cardeal Agnelo lembrou sua capacidade de promover a unidade. “Seu segredo consistia em insistir na unidade em torno às coisas essenciais, fomentando o respeito às legítimas diferenças e praticando em tudo a caridade e o respeito mútuo”, disse o presidente da CNBB em sua homilia. “Tinha memória prodigiosa, recordando nomes de pessoas que há muito não encontrava. Todos se sentiam bem acolhidos por ele. Achava sempre algo de bom nas idéias do interlocutor, buscando valorizá-las”.
        
Para o cardeal, dom Luciano era o “homem das sínteses e das boas formulações, sabia articular uma multiplicidade de propostas e sugestões. Esse seu carisma foi muitas vezes decisivo na construção de textos e declarações, que marcaram profeticamente a Igreja, ainda durante o regime militar e nos grandes debates em defesa da vida, da justiça e da paz, da conservação da natureza e do ambiente, da luta pela superação da miséria e a exclusão”. Destacou ainda o compromisso do arcebispo de Mariana com os excluídos. “Dom Luciano dedicou as suas melhores energias ao serviço da Igreja e na defesa dos pobres, marginalizados e injustiçados, dos negros e dos índios”.

Despedidas
        Antes das orações finais, houve pronunciamento do padre Marcelo Moreira Santiago até então vigário geral da Arquidiocese. Em seu discurso, padre Marcelo exaltou o pastoreio de dom Luciano na Arquidiocese e falou de seu jeito simples de ser. “Obrigado, dom, Luciano!”, concluiu padre Santiago.
        
Também o prefeito de Mariana, Celso Cota, fez uso da palavra. Recordou o compromisso do arcebispo com as causas sociais, citando o sonho que o arcebispo tinha de ver realizada a reforma agrária no país. “Muitas vezes ele me disse: por que não municipalizar a reforma agrária?”, revelou o prefeito que propôs a criação de um Memorial a Dom Luciano.
        
Os irmãos de dom Luciano, professor Cândido Mendes e Luiz Fernando, ressaltaram os dotes do irmão bispo. “Não sei se é a melhor forma de falar de dom Luciano é: ‘enfim, descansou!’. Descansou coisa nenhuma!”, disse o professor. “Dom Luciano, necessariamente, em Deus, vai continuar não na facilidade do apenas merecer a vida eterna. Ele já está fazendo muito barulho na comunhão dos santos no que efetivamente ele representa esta condição e este trabalho. Por favor, não me repitam que dom Luciano descansou em Deus”, exortou Cândido Mendes. “Também não me digam que temos um santinho lá no céu, por favor. Dom Luciano não é nenhum diminutivo. O que dom Luciano nos dá é a alegria do céu trazida para terra. Dom Luciano é a presença invasora permanente da graça e de Deus entre nós”, concluiu.
        
“Eu tenho certeza que meu irmão é um santo”, disse, entre soluços e lágrimas, o outro irmão, Luiz Fernando, que acompanhou dom Luciano durante todo tempo de sua internação no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Lembrou que dom Luciano nunca deixou de rezar o breviário e, quando não podia mais rezá-lo, rezava o terço e pedia pelos padres, pela Arquidiocese de Mariana e pelos pobres. De novo emocionado, Luiz Fernando contou o momento em que dom Luciano, antes de ser sedado para não sentir as dores do tratamento a que seria submetido na UTI, segurou suas mãos e lhe disse: “Não abandonem os pobres”. A praça inteira aplaudiu.
        
“Dom Luciano continua vivo nas lutas do povo!”. Esta foi a palavra de ordem dita pelo padre Antônio Claret Fernandes, membro do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), e repetida pela multidão para dizer que dom Luciano continuará presente na vida e na luta dos movimentos sociais e populares.

Sepultamento
        Terminados os pronunciamentos, dom Agnelo procedeu às orações de encomendação e despedida. Em seguida, os padres conduziram a urna até a cripta onde o corpo foi sepultado. Na cripta, o presidente da CNBB benzeu a gaveta na qual foi depositada a urna com o corpo do arcebispo. Após a visita dos bispos e do padres, a população também pode visitar o túmulo de dom Luciano, o pai dos pobres.


Atualizada em 30 de agosto de 2006

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