Departamento Arquidiocesano de Comunicação da Arquidicoese de Mariana


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Homilia do cardeal Majella na Missa de Exéquias de D.Luciano


Morreu Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, SJ:
Um servidor da Igreja e do Povo
* 05.10.1930 + 27.08.06



        “Deus nos criou por amor, e Ele sabe o que é melhor para nós. Coloco minha vida em suas mãos”. Essas palavras, escritas recentemente por Dom Luciano Mendes de Almeida (Folha de S. Paulo, 5-8-06), bem exprimem não só uma convicção, mas a experiência fundante da vida desse servidor de Deus, da Igreja e do povo, que foi Dom Luciano Mendes de Almeida.
        No seu serviço à Igreja, Luciano Mendes, de família de tradição católica do Rio, nascido em 1930, contou com uma sólida formação de Jesuíta, Ordem em que se formou presbítero em 1958. Adquiriu sólida base filosófica, teológica e humanística. Doutorou-se em Filosofia tomista, na Universidade Gregoriana de Roma. Ainda em Roma, dedicou-se à pastoral carcerária. Na Ordem, exerceu diversas funções, inclusive a de Vice-Provincial para a Formação.
        Chamado ao episcopado pelo Papa Paulo VI, Dom Luciano serviu a partir de 1976 na Região Belém, em S. Paulo, como bispo auxiliar do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Em 1988 foi eleito para a Arquidiocese de Mariana, onde “In nomine Jesu” (“Em nome de Jesus”, seu lema episcopal, se doou totalmente por dezoito anos e três meses, até a sua morte.
        Quem conviveu com ele, na CNBB e nas múltiplas atividades de seu ministério episcopal, tinha a clara impressão de estar diante de alguém totalmente impregnado de Deus, vivendo continuamente em Sua presença. Um místico em meio aos cuidados quotidianos, um contemplativo na ação.
        Na Eucaristia e em vigílias noturnas, Dom Luciano hauria forças para sua ação firme e incansável como bispo, como dirigente da CNBB e como defensor dos pobres. Seu zelo pela Igreja e pela humanidade alimentavam-se numa vida intensa de oração, em sua identificação afetiva com Jesus Cristo, na devoção a Maria, na caridade pastoral.
        Membro da Direção da CNBB por dezesseis anos – oito como Secretário Geral e oito como Presidente – Dom Luciano foi um incansável promotor da unidade do episcopado e um animador da renovação pastoral de nossa Igreja. Grande inspirador de iniciativas pastorais, fomentava o diálogo como forma de buscar o entendimento entre posições que poderiam parecer inconciliáveis.
        Seu segredo consistia em insistir na unidade em torno às coisas essenciais, fomentando o respeito às legítimas diferenças e praticando em tudo a caridade e o respeito mútuo. Tinha memória prodigiosa, recordando nomes de pessoas que há muito não encontrava. Todos se sentiam bem acolhidos por ele. Achava sempre algo de bom nas idéias do interlocutor, buscando valorizá-las.
        Homem das sínteses e das boas formulações, sabia articular uma multiplicidade de propostas e sugestões. Esse seu carisma foi muitas vezes decisivo na construção de textos e declarações, que marcaram profeticamente a Igreja, ainda durante o regime militar e nos grandes debates em defesa da vida, da justiça e da paz, da conservação da natureza e do ambiente, da luta pela superação da miséria e a exclusão.
        Dom Luciano dedicou as suas melhores energias ao serviço da Igreja e na defesa dos pobres, marginalizados e injustiçados, dos negros e dos índios.
        Como secretário Geral da CNBB, de 1979 a 1986, Dom Luciano colaborou com Dom Ivo Lorscheiter na animação da pastoral de conjunto da Igreja no Brasil, na difícil conjuntura do governo militar.
        Com firmeza e habilidade, ele conduziu os debates com o governo sobre temas como a Reforma Agrária e Urbana e a política social. Já como Presidente da CNBB (1987-1994), continuou a animar o planejamento pastoral e a acompanhar o debate constitucional e a regulamentação de questões por vezes controversas da nova Constituição de 1988.
        Foi constante seu empenho em colocar em prática o Concilio Vaticano II e as orientações das Assembléias de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), Assembléias das quais participou com destaque.
Durante seu primeiro mandato de Presidente, obrigado a freqüentes viagens, Dom Luciano sofreu um grave acidente automobilístico, que quase lhe custou a vida, deixando seqüelas de sofrimento para o resto da vida.
        As visitas anuais ao Santo Padre, durante o período em que integrou a Presidência da CNBB, deram a Dom Luciano uma oportunidade única de aprofundar o conhecimento e a estima do Sucessor de Pedro, na pessoa de João Paulo II. Desde 1987, Dom Luciano atuou como membro do Conselho Permanente do Sínodo dos Bispos, tendo participado, desde então de todas as Sessões Ordinárias dos Sínodos (11), em Roma. Desde 1992 foi membro da Pontifícia Comissão Justiça e Paz.
        Seu zelo universal encontrou espaço também na Igreja da América Latina, onde foi Vice-Presidente do CELAM (1995-98).
        Em Mariana, onde serviu desde 1988, Dom Luciano organizou a Arquidiocese em cinco Regiões Pastorais e teve especial atenção à formação do Clero reestruturando o Seminário Arquidiocesano. Igualmente, priorizou a atuação dos leigos realizando assembléias pastorais, constituindo os Conselhos Arquidiocesano, dinamizando as dimensões e pastorais, como Catequese, Liturgia, Pastoral da Criança e do Menor, Pastoral da Juventude, Pastoral das Vocações e Ministérios, Pastoral do Dízimo e Pastoral Familiar.
        No período de enfermidade, configurou-se sempre mais à paixão de Jesus, coroando a sua vida de amor a Cristo e à Igreja abraçando a cruz na certeza da ressurreição como o seu último serviço à vida e à esperança.
        Dom Luciano interessava-se por todas as questões que tocassem a fé, a vida, a saúde e bem comum, do Brasil e do mundo. Podemos destacar alguns desses temas, que eram verdadeiras paixões desse coração de apóstolo.
        A primeira paixão eram os pobres, todos os pobres e sofridos, mas particularmente as crianças e os meninos e meninas de rua. Como Bispo auxiliar de S. Paulo, na Região Belém, organizou centenas de abrigos para menores e para moradores de rua. Não raro, Dom Luciano saía de madrugada, recolhendo pequenos e mendigos, dialogando com eles e levando-os a um abrigo. Nas palavras de um colaborador seu, “Dom Luciano era um obcecado em recolher menores abandonados”. Ao lado de Betinho (Herbert de Souza), D. Luciano foi um dos promotores da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida.
        Aliada a essa paixão e a serviço dela, Dom Luciano amava apaixonadamente a Igreja, um amor manifestado por uma fidelidade profunda e por vezes sofrida, devido a incompreensões, fraquezas e limitações humanas, próprias e alheias. Pôs seus carismas a serviço dessa Igreja, sendo presença freqüente e iluminadora em encontros e congressos, na orientação de retiros, ou mediando situações difíceis.
        Outra paixão foi a comunicação e a evangelização pela mídia. Deve-se em boa parte a Dom Luciano a criação da primeira rede católica de TV, a Rede Vida, para cuja viabilização ele varou madrugadas e bateu em muitas portas. Achava incompreensível que a Igreja no Brasil não tivesse sua própria rede de TVs, ao lado de rádios e jornais. Desde 1983, D. Luciano mantinha uma coluna semanal na Folha de S. Paulo.
        Poderíamos falar de outras paixões de homem de Deus, de olhar e coração aberto ao mundo: a defesa da vida e da família, a formação do clero e dos leigos, a promoção da justiça e da paz, a luta contra a fome e a marginalização, a recuperação de químico-dependentes e encarcerados. Entre as várias comissões em que atuou D. Luciano, está a do Mutirão de Superação da Miséria e da Fome, da qual foi Presidente de 2002 a 2005. “Alimentando a Esperança do Povo” foi o título que ele propôs para as prioridades do Mutirão para 2006-2007, texto do qual ele foi o principal redator.
        Nos empenhos em que consumiu sua vida, D. Luciano manteve um modo de proceder invariável e que o tornou amado e admirado por todos que o conheceram: suave nas palavras, firme nos princípios, forte na ação. Assim queremos recordá-lo. Deus seja louvado pelo grande dom, para a Igreja e o mundo, que foi a vida e a ação de Dom Luciano Mendes de Almeida.
        
Querido e saudoso Dom Luciano,
        No dia da tua ordenação episcopal, o ritual te fez ouvir: “Vela, pois, por todo o rebanho dos fieis a cujo serviço te coloca o Espírito para reger a Igreja de Deus: em nome do Pai, de quem és imagem entre os fiéis, em nome do Filho,cuja missão de mestre, sacerdote e pastor exerces; e em nome do Espírito Santo, que dá a vida à Igreja de Cristo, e fortalece a nossa fraqueza”.
        Com fidelidade e perseverança anunciaste o Evangelho de Cristo, edificaste a Igreja, corpo de Cristo, cuidaste do povo de Deus com amor de pai; foste afável e misericordioso para com os pobres e todos os necessitados. Como bom pastor, procuraste as ovelhas errantes, rezaste incessantemente por teu povo que chora a tua perda.
         Ouviste a Palavra do Senhor, na última ceia da instituição da eucaristia e do sacerdócio: “Já não vos chamo servos, mas amigos, porque vos dei a conhecer o que ouvi do meu Pai”.
        Viveste o profundo significado de ser sacerdote e bispo: tornar-se amigo de Jesus Cristo. Viveste esta amizade renovando cada dia o teu compromisso. Assumiste o amor de Jesus, um encontrar-se no mistério de Jesus, emprestando-lhe a tua carne, para estar no meio do seu povo, sentir as suas angústias, e assumir até na doença, na dor física o que o Senhor sofreu para dar a vida por nós.
        Aqui está a tua amada Arquidiocese de Mariana que te retribuiu o amor. Estão os teus pobres que te recomendam a Jesus receber-te no paraíso preparado para os que o reconheceram no pobre, no esquecido, no discriminado, no excluído, no rejeitado, no espoliado da sua dignidade humana e no ludibriado por tantas promessas.
        Dom Luciano, em tua vida testemunhaste a Palavra que proclamaste. Agora que o Senhor te chamou para junto de Si, podes ir ao seu encontro e ouvir dele estas palavras: “Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor”.
        A Senhora do Carmo, Mãe de Jesus o Salvador e Mãe da Igreja, te receba e te recomende a Ele. O coro dos anjos te receba e com Lázaro, o pobre de outrora, possuas o repouso eterno.
“Quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente”.


Atualizada em 30 de agosto de 2006

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