Se
você, como inúmeros brasileiros, ainda está
em dúvida com relação ao seu voto no referendo
do próximo domingo, 23 de outubro, leia, na íntegra,
a carta escrita pelo padre Wander Torres Costa (padre Wandinho),
da Pastoral da Juventude, Região Mariana Leste, que faz referência
ao artigo escrito por um dos articulistas do site da Arquidiocese,
cônego José Geraldo Vidigal, intitulado como “O
Não e o Sim”. A publicação da
carta foi autorizada pelo padre Wander Costa.
Prezado
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Li
o artigo do senhor a respeito do referendo do próximo dia
23. Participando do programa “Sala especial” no dia 19/10, também
pude acompanhar o depoimento que foi gravado pelo senhor. Como deve
saber, tenho participado do comitê pró-desarmamento
aqui da nossa cidade. Como um “irmão mais novo no ministério”
e companheiro de trabalho na FAM gostaria de apresentar alguns elementos
importantes, que acredito serem fundamentais para essa questão.
Em primeiro lugar fico a pensar
qual será a posição entre o sim e o não.
Será possível? Aliás como o senhor mesmo cita
em seu artigo, o que escutamos Jesus falar em Mt 5,37 ilumina essa
questão: “Diga apenas sim, quando é sim; e não
quando é não”. Também no Apocalipse de São
João o autor sagrado nos diz: “Conheço sua conduta:
você não é frio nem quente. Quem dera que fosse
frio ou quente. Porque é morno, nem frio nem quente, estou
para vomitar você da minha boca.” Aliás também
o argumento de que se está gastando muito com esse referendo
me faz lembrar o episódio de Jo 12, 1-11, onde Judas questiona
o ato generoso daquela mulher que ungia os pés de Jesus.
O comentário do evangelista é muito interessante:
“Ele disse isso não porque se preocupasse com os pobres,
mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, roubava o que
aí era posto”.
Além do mais a campanha
do Sim não é uma campanha ingênua. Sabemos de
todos os problemas que o Brasil enfrenta e queremos enfrentá-los
com coragem e justiça. É certo que não é
apenas desarmando a população que conseguiremos a
tão desejada e sonhada paz de Nosso Senhor Jesus Cristo,
mas ele é um dos fatores fundamentais em direção
de uma sociedade menos armada. Nesse sentido, concordo que precisamos
desarmar o espírito, o nosso coração. Mas qual
é, concretamente falando, a atitude de quem tem o coração
desarmado? Armar-se para matar? Creio que não.
Também é importante
lembrar que a questão do desarmamento não foi colocada
pelo governo. Há bastante tempo, desde a década de
90, que cresce na sociedade civil o desejo de proibir a comercialização
de armas de fogo. Quem está à frente desta campanha
não é o governo e sim a sociedade civil organizada,
inclusive a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (cf.
a nota oficial da CNBB a respeito do Referendo sobre a proibição
do comércio de armas de fogo e munição) e o
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e tantas outras organizações
não-governamentais. Basta lembrarmo-nos que no ano 2000,
quando ainda tínhamos um outro governo, a CNBB já
abraçava esta luta através da campanha da fraternidade
(cf. texto-base da CF 2000). Assim como o senhor, prezado cônego,
também estou decepcionado com o nosso governo mas penso que
não é sendo favorável à opção
NÃO que vamos explicitarmos nossa revolta. É preciso
lembrar que o desarmamento não é uma votação
para dizer quem está a favor ou contra o governo. Ao dizer
não, quem sai perdendo não é o governo e sim
a população civil. Aliás muitos dizem que não
é dizendo sim que se vai acabar com o problema da violência,
será então através do não?
Além do mais, penso que
a questão central não está sendo tratada por
aqueles que defendem o não. Não nos esqueçamos
que vivemos num mundo marcado pelo neoliberalismo e como bem sabe
o senhor, o deus neoliberal é o dinheiro e tudo relacionado
com ele: o mercado e o comércio. Tudo o que dá lucro
tem uma atenção especial da parte do neoliberalismo.
Nesse sentido penso que o fator que está em jogo é
a questão da COMERCIALIZAÇÃO. Por que será
então que há tanta força pelo voto não?
Será realmente por causa da segurança da população?
Creio que não, pois mais do que segurança, comércio
de armas dá lucro. E é isso que não se está
falando. Só para termos uma idéia, dados repassados
pela própria Forja Taurus, principal indústria de
armamentos, indicam um faturamento em 2004 de R$ 164,871 milhões.
A proibição da comercialização de armas
e munição atinge diretamente este setor. Outro aspecto
ligado a isso é que para um produto se transformar em comercial
é preciso que tenha demanda, ou seja, é preciso de
pessoas que comprem. Então, o que leva uma pessoa a comprar
uma arma? Quem vende tem que provar que determinado produto é
eficaz. Se por exemplo, quero vender sabão em pó,
tenho que mostrar que ele limpa as roupas. Mas como não seria
ético fazer propaganda sobre a compra de armas, então
usa-se outros argumentos que façam a população
comprar o produto.
O que está acontecendo
é que este setor, a indústria do armamento ou a indústria
do medo, impossibilitada de colocar o seu verdadeiro argumento,
ou seja, o de deixar de lucrar com a proibição da
comercialização de armas de fogo e munição
tem colocado na cabeça da população argumentos
que confundem e não tratam do que vem a ser o fundamental.
Prezado cônego, envio
essa carta ao senhor apenas para mostrar outros elementos que devem
ser considerados. Apenas quis expor meus argumentos e ajudar a clarear
um pouco mais a questão, atitude que o senhor como meu professor
de filosofia ensinou-me a fazer.
Para terminar, lembro aquela
historinha do beija-flor. Segundo a história, o beija-flor
ao ver a floresta em chamas começou a encher o seu pequeno
bico de água e despejá-la na floresta. Os outros animais
ao perceberem tal fato criticaram o beija-flor dizendo que nunca
ele conseguiria acabar com aquele incêndio. O beija-flor,
entretanto, disse com bastante convicção: “pelo menos
eu estou fazendo a minha parte. Quando a floresta estiver toda queimada,
não poderão dizer que não fiz nada por ela”.
Dizer sim no dia 23 de outubro é um pequeno gesto, talvez
menor do que o do beija-flor, mas necessário se quisermos
contribuir para uma verdadeira cultura de paz.
Um forte abraço,