Departamento Arquidiocesano de Comunicação da Arquidicoese de Mariana


 Histórico
 Organização
 Dom Luciano
 Tribunal Eclesiático
 Seminário
 Museu
 Catequese

 

Regiões
Arquidiocesanas

Saiba mais sobre a região centro!Centro
Saiba mais sobre a região leste!Leste
Saiba mais sobre a região norte! Norte
Saiba mais sobre a região oeste! Oeste
Saiba mais sobre a região sul! Sul

Mande notícias
Clique aqui. . .

 

À paisana

      Dezesseis de março de 2007. Termina reunião do MAB em Rio Doce, um policial à paisana infiltrado me procura e elogia o encontro; diz que aquele método é correto, buscando solução dos problemas dentro da Lei e, não, através de invasão de propriedade alheia. Disse ainda ser preciso superar a visão do policial como ‘cachorro do Governo’, pois vivemos num Estado Democrático de Direito e, nesse contexto, a sua missão é proteger o cidadão.

      Para quem entende, um pingo é letra. Indignado e totalmente descrente nesse tal Estado Democrático de Direito, cuja finalidade última é manter as regalias da minoria, resolvo contrapor-lhe.

      Fito-o nos olhos e conto-lhe brevemente a história daquelas cento e trinta famílias ali reunidas, atingidas pela barragem de Candonga: do seu antigo modo de vida em harmonia com o Rio e a Natureza durante mais de duas centenas de anos; do cultivo de extensas áreas de terras férteis e da renda complementar do garimpo artesanal, da pesca e do plantio de frutas, hortaliças e criação de pequenos animais nos imensos quintais, margeando á água; da demolição de todas as edificações de São Sebastião do Soberbo e expulsão das famílias por um contingente de mais de duzentos policiais, no dia três de maio de 2004; do processo ditatorial, repressor e irresponsável de implantação de barragens em todo o Estado e no Brasil; isto, sim, é invasão, transformando terras e água secularmente socializadas por mais de seiscentas famílias em propriedade de duas empresas, Vale do Rio Doce e Novelis, para lhes renderem mais dinheiro.

      Lembro-lhe ainda que seus colegas, ao contrário do que imagina, não são tão defensores dos cidadãos e não é sem razão, portanto, que o povo olha os policiais com desconfiança. Conto-lhe da implicação dos militares no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. As companheiras da Via Campesina, reunidas no Mineirinho, em Belo Horizonte, desde o dia 6, se preparavam para sair de ônibus rumo à Praça da Estação, de onde partiriam em Marcha até o Palácio do Governo. Não é que os policiais bloquearam a saída e condicionaram a liberação da passagem à vistoria de todas as mulheres e dos ônibus? Somente após muito embate e intervenção do Deputado Padre João Carlos, vistoriaram ‘apenas’ os ônibus sob vai das mulheres, corajosas, lindas e lutadoras.

      O policial à paisana já estava meio incomodado, mas ainda assim lhe relato da prepotência dos militares no final da Marcha, com mais de 1500 mulheres. Por nada eles prenderam dois companheiros na Praça da Liberdade, mas as marchantes pararam o trânsito e não arredaram o pé até que foram liberados.

      Na volta à Praça da Estação, mais uma pérola da bestialidade fardada. Um vendedor ambulante ia com sua carrocinha levando água e refrigerante quando dois policiais, feito burros, lhe tomam o carrinho e, não se sabe o porquê, lhe deram um empurrão tão forte que ele sai de ponta cabeça e quase cai com o rosto no chão. Mas o bonito foi que, nesse mesmo instante, a animadora da Marcha denuncia o fato no som e Frei Gilvander com um colega reintroduzem o carrinho em meio às mulheres e o devolvem ao trabalhador que, embora muito assustado, sorri agradecido e feliz. A força feminina, presente nos homens e mulheres de bem, vence a fraqueza bruta.

      A essas alturas, o policial à paisana olhava apressado o relógio no braço. Mas ainda aproveito para contar-lhe da ocupação do IBAMA no dia 10 de março, na capital mineira, quando os policiais adentraram o prédio sem autorização do Superintendente, Roberto Messias Franco, o qual, a pedido dos manifestantes, convidou-os a se retirarem. Babando, como cão raivoso, eles deixaram o prédio e a rua e os manifestantes, sem a petulância deles, seguiram sua manifestação pelas ruas de Belo Horizonte na mais perfeita ordem.

      O policial à paisana ameaçava despedir-se, mas insisto em falar-lhe ainda sobre o crescimento da violência policial em nosso Estado. Segundo dados da Ouvidoria de Polícia em Minas Gerais, em 2004 houve denúncia de 54 casos de tortura e, em 2005, de 71 casos; número superior a São Paulo, que teve 41 casos em 2004 e 26 em 2005 (Jornal O Globo, 16 de março de 2007, página 13). Isso apenas reforça a ditadura em curso em Minas Gerais. Temos aqui uma ditadura branca, à paisana.

      Vivamente atrapalhado, sem saber o que falar, o policial estende a mão e, ao invés de despedir-se, diz apenas:

      _A bênção, Padre!

      E foi-se embora.

Padre Claret


Atualizada em 23 de março de 2007

Departamento Arquidiocesano de Comunicação


<- Volta a página principal ->


Volta a página
<- Principal ->