Deus
é amor
Dom Luciano Mendes de Almeida
Faz-nos bem a todos ler a
primeira Carta Encíclica do Papa Bento 16. Bela e oportuna.
A 25 de janeiro, lança ao mundo o convite para voltarmos
a atenção ao centro da mensagem cristã: "Deus
é amor". Ele nos ama primeiro. Somos chamados em Cristo
a amar a Deus.
Na primeira parte, com maestria
de quem conhece a riqueza do pensamento humano ao longo dos séculos,
procura resumir a ampla reflexão sobre o amor. Analisa
o problema de linguagem, mostrando a significação
das palavras "eros" e "ágape". Aponta
para a unidade que deve haver entre o amor ascendente (eros) e
o amor oblativo (ágape). Essa unidade exige, no entanto,
a purificação de "eros", não raro
degradado e relegado ao campo puramente biológico, tornando-se
até mercadoria. O "eros", uma vez purificado,
vence o egoísmo e busca o bem do amado, progredindo até
a exclusividade e permanência para sempre do amor. Quando
o êxtase do amor rompe o fechamento sobre si, abra-se ao
outro e à descoberta de Deus. O "eros" tende
ao dom de si (ágape).
A fé bíblica
revela a nova imagem de Deus, que cria o mundo por amor e ama
cada pessoa humana. Em Deus, o "eros", amor apaixonado
à criatura, é amor primeiro, gratuito, capaz de
perdoar o povo que rompe a aliança. É totalmente
"ágape". A narração bíblica
referindo-se ao amor do homem e da mulher mostra como o "eros"
impele o homem ao amor da mulher, exclusivo e definitivo, que
se torna ícone da relação amorosa entre Deus
e o povo.
A novidade sobre o amor resplandece
em Jesus Cristo. Deus vem em busca da humanidade sofredora. Jesus
Cristo se entrega por amor para levantar a humanidade decaída.
Na Eucaristia, manifesta-se o ato oblativo, a entrega total de
sua vida por nós. O amor a Deus e o amor ao próximo
fundem-se num todo. Cristo, atraindo-nos a Ele, une-nos a todos.
É a plena realização do ágape, da
doação amorosa. Unir-se a Cristo é identificar
com os famintos, sedentos e encarcerados.
A seguir, o Papa esclarece
o nexo inseparável entre o amor a Deus e ao próximo.
Quando nos fechamos aos irmãos, afirmar que amamos a Deus
é uma mentira. Deus torna-se visível enviando seu
Filho ao mundo. Faz despontar em nós a experiência
forte de sermos amados por Ele, levando-nos à união
de pensar e querer. Unidos a Cristo, aprendemos a ver com o seu
olhar, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina. O amor de
Deus faz nascer em nós o amor gratuito de doação
e de serviço ao próximo.
A segunda parte, mais extensa,
trata da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo
como resposta humana ao amor divino. O serviço da caridade
que pertence à própria natureza da Igreja. Embora
o problema das justas estruturas pertença à política,
regida pela justiça, compete à Igreja a formação
da consciência e auxiliar para o reto discernimento e purificação
da razão sobre o que é a justiça e contribuir
para que seja reconhecida e realizada. Na sociedade justa, não
pode faltar o amor. O homem sofredor carece de dedicação
amorosa. A Igreja, sem proselitismo, é chamada a testemunhar
o amor de Deus, a ajudar, a exemplo do Bom Samaritano, vivendo
a gratuidade do amor.
O Santo Padre, após
uma lúcida e ampla exposição sobre a missão
da Igreja a serviço da caridade, recorda o exemplo dos
santos e implora a intercessão de Maria, Mãe do
Senhor, para que, no mundo dilacerado pelo ódio, pela violência
e pela miséria, a Igreja se coloque sempre mais a serviço
do amor.
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