Meu
caro padre Júlio Lancelotti
Dom Luciano Mendes de Almeida
Li o artigo que a revista
"Veja" publicou sobre você. A jornalista certamente
não conhece sua vida. Quantas vezes, caro padre Júlio,
conversamos longas horas colocando em comum o ideal de seguir
Jesus Cristo e de servir por amor o povo mais pobre. Lembro-me
de quando o vi pela primeira vez, em 1976. Encontrei-o rezando
na Igreja. Você era um jovem professor e educador dos rapazes
da Febem no Tatuapé, na capital de São Paulo.
Mais tarde, você decidiu
fazer os estudos do seminário e ser sacerdote para melhor
anunciar Jesus Cristo, revelar a cada pessoa a dignidade de filhos
de Deus e empenhar-se inteiramente na promoção dos
excluídos e, em especial, dos menores de rua.
Foi nos anos 70 que nasceu
a Pastoral do Menor, na área do Belenzinho, na Zona Leste.
Você foi dos primeiros a assumir essa missão. Na
época, vivi a seu lado e sou testemunha do seu zelo em
acolher os jovens de rua, em atuar na Febem, buscando métodos
mais humanitários. Perto da Igreja de São José
do Belém, você abriu a casa para atender aos casos
mais urgentes. Foi aí que velamos durante a noite e a madrugada
o Joilson, rapazinho assassinado covardemente no largo São
Francisco. Seguiram-se, é triste lembrar, outros muitos
menores eliminados pela violência.
Passaram-se quase 30 anos
de constante solicitude pelos meninos e meninas e pelos jovens
desamparados. Seu empenho alargou-se para o povo sofrido das ruas
do centro de São Paulo. Homens e mulheres rejeitados pela
sociedade. Sem teto e sem apoio. Desnutridos. Expostos à
violência e, não raro, resvalando na bebida, na droga,
no desespero e no crime. Mas também quanta gente boa, de
coração aberto, dividindo o pão e a coberta
uns com os outros. São milhares, cada um com sua história,
sofrimentos e pequenas alegrias. Quanta gente povoa a nossa memória:
João, Aguinaldo, Joaquim, Tavares. Alguns bem doentes,
com feridas, precisando de tratamento.
Seu sacerdócio, padre
Júlio, desde cedo ficou marcado pelo anseio de amar e de
acolher esses irmãos e irmãs, acompanhando-os nas
vicissitudes e dando-lhes seu tempo, sua inteligência e
seu coração para ouvi-los, compreendê-los
e ajudá-los a ter esperança e caminhar na vida.
Surgiram iniciativas preciosas.
Em 1990, você inaugurava a Comunidade São Martinho,
no viaduto de Guadalajara, para oferecer ao povo da rua, durante
o dia, um ambiente amigo, o café, banho, documentos e iniciação
ao trabalho. Ver para crer. Quanto bem tem sido feito. Só
Deus sabe. Veio depois a abertura da Casa Vida, para as criancinhas
portadoras de HIV. Continuava o esforço hercúleo
para a recuperação dos jovens internos na Febem,
as visitas às delegacias e prisões e muitas outras
lutas. Não me esqueço de sua colaboração
com irmã Maria do Rosário, com Ruth Pistori e com
tantos outros para a redação do Estatuto da Criança
e do Adolescente e para as Semanas Ecumênicas do Menor.
Tudo isso está escrito no Coração de Deus.
Poucos conhecem sua incansável atuação na
paróquia de São Miguel, onde tantos encontram a
palavra de conforto, o alimento e o abrigo para a noite.
Caro irmão, não
se impressione com o que alguns escrevem sobre você, deformando
a verdade. Estou certo de que você perdoa a todos. Não
conhecem sua vida nem o sofrimento dos pobres. Fiel discípulo
de Jesus Cristo, continue fazendo o bem. Deus está com
você.
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