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Lições de vida

Dom Luciano Mendes de Almeida

      As notícias sobre o descontrole ético que atingiu vários líderes de nosso povo continuam causando perplexidade e exigindo apuração das responsabilidades e conseqüente punição. A impunidade lançaria descrédito quanto à governabilidade do país. Assim, enquanto os fatos vão sendo melhor conhecidos a fim de que a verdade venha à luz e as medidas corretivas sejam aplicadas, é necessário meditar sobre os acontecimentos e tirar algumas lições de vida.
      A corrupção tem por raiz o anseio desregrado de enriquecimento que leva a buscar até meios ilícitos para conseguir o seu propósito. Se analisarmos esse comportamento, percebemos o individualismo de quem pensa somente no seu próprio proveito e se esquece dos outros e, além disso, a ilusão de escolher o enriquecimento a todo custo como meta de vida. É preciso corrigir o erro.
      A riqueza é projetada como miragem e provoca um dinamismo de sofreguidão que descontrola a percepção de valores e acarreta desvios de conduta. Nessa perspectiva perde-se o empenho pelo bem do próximo e o respeito às exigências da solidariedade. Com efeito, um dos efeitos do enriquecimento é a busca de vida cômoda demais, a acumulação doentia de bens materiais e a procura de vantagens pessoais sem atender ao dever de cidadania de auxiliar os que se encontram em extrema necessidade. O remédio para esses desvios está na educação para a solidariedade que nasce da estima do próximo e do reconhecimento de que o direito do outro a condições humanas de vida tem total precedência sobre meu bem-estar. À luz do Evangelho, cresce ainda mais a responsabilidade pelo próximo, a quem devemos amar e ajudar como Cristo nos ensina, escolhendo até uma vida mais simples, em sintonia com a maioria do povo.
      Há outra lição a tirar diante do desacerto de muitas atitudes pessoais e públicas. Perde-se o horizonte de transcendência. Há um estreitamento do projeto de vida. Parece que tudo se resume em aproveitar o mais possível o momento presente. O resto não importa. Não há mais exigências éticas nem referência a valores absolutos. Acaba-se trocando o anseio da realização plena da pessoa por emoções fugazes e frustrantes. Sem esperança de vida eterna e feliz, não há paz de consciência. Sem abertura do coração a Deus, não é possível experimentar a alegria maior de ser amado e amar de verdade.
      A consciência que se violenta pela corrupção e se faz conivente com opções que destroem valores fundamentais vai se ofuscando cada vez mais e perdendo o discernimento. Precisamos ser mais fiéis aos apelos profundos de felicidade que continuam clamando em nosso íntimo e experimentar, também em nós, o que santo Agostinho tão fortemente expressa: "Senhor,meu coração estava inquieto enquanto não descansou em vós".
      O encontro com Deus presente no mais profundo do nosso ser não só pacifica o coração mas oferece a comunhão e o diálogo que nos faz descobrir o caminho da verdade, a paixão pelo bem e a fidelidade aos ditames da consciência. Nessa condição existencial, não há lugar para a corrupção e para nenhum atrativo do mal fantasiado de bem.
      Os acontecimentos de cada dia, mesmo quando nos decepcionam, convidam-nos a refletir, rezar e discernir, à luz de Deus, lições de vida e sementes de esperança.

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