Preparando
a nova sociedade
Dom Luciano Mendes de Almeida
Diante dos acontecimentos
políticos que há meses ocupam o cenário nacional,
vamos passando da perplexidade à vontade de encontrar caminhos
a fim de superar o desencanto causado pela corrupção
e pela paralisia de projetos urgentes para o bem da população
empobrecida.
Fomos atingidos pela crise
moral que envolveu representantes do povo e lesou até a
credibilidade do atual sistema. Há dificuldade em conhecer
a totalidade dos fatos no emaranhado das informações
veiculadas pelos meios de comunicação social. Não
poucas informações foram divulgadas antes de terem
a sua veracidade assegurada pela justa liberdade de defesa. À
crise moral soma-se o atraso em enfrentar as reformas sociais
necessárias para garantir à população
carente condições dignas de vida.
Temos a impressão de
que faltam ventos que enfunem as velas. É preciso passar
da denúncia e da desaceleração das políticas
públicas a uma nova fase que incentive a maior participação
dos cidadãos no planejamento e na execução
das ações do Estado.
Entre as iniciativas de participação
popular, têm prioridade a discussão e a aprovação
dos orçamentos e da Lei das Diretrizes Orçamentárias
dos municípios, dos Estados e da União. Comissões
com participação popular terão a responsabilidade
de fiscalizar o cumprimento da execução orçamentária
para evitar desvios e o descumprimento das metas estabelecidas.
O primeiro passo deveria ser
dado pelas assembléias municipais, acelerando, a curto
prazo, a participação das entidades da sociedade
local organizada. A experiência servirá para inspirar
a desejada reforma política que amplie a atuação
popular no atual regime democrático.
Essas e outras propostas hão
de educar o povo para o exercício responsável da
cidadania, ajudando a corrigir as formas de corrupção
que penetram na vida política do país. Há,
no entanto, um trabalho mais profundo e indispensável a
ser feito para que aconteça a verdadeira mudança
nas relações de poder e na organização
da sociedade.
As manifestações
de corrupção indicam uma crise de valores que precisa
ser enfrentada para sanar o fundamento de todas as iniciativas
da cidadania. Não basta exercer o voto e buscar formas
de participação mais eficientes, é preciso
ir à raiz dos males e identificar alguns “vírus”
que agridem a saúde do organismo social.
Um vírus pernicioso
atinge a própria hierarquia de valores, fazendo crescer
a cobiça doentia de bens materiais, a ambição
de riqueza, projetando como ideal a sociedade da afluência
e a concentração de capital em mãos de minorias,
sem conseguir oxigenar a maior parte do corpo social.
Outro “vírus” que destrói
a consciência dos cidadãos é a convicção
errada de que é preciso reprimir a violência com
a violência, gerando no país um ambiente de constantes
conflitos armados.
O melhor antídoto contra
estes e outros “vírus” é o concentrado vitamínico
do Evangelho, que difunde pelas veias do tecido social a cura
do mal, a valorização da pessoa, a partilha e a
distribuição eqüitativa de bens, o respeito
aos direitos, a solução pacífica dos conflitos,
o perdão, a reconciliação e a concórdia
.
Peçamos a Deus que
nos ajude a eliminar os “vírus”, preparando a nova sociedade
a fim de que sejamos capazes de promover o bem comum sem corrupção
e sem excluídos.
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