Doutrina
social da igreja
Dom Luciano Mendes de Almeida
O papa João Paulo
2º, ao celebrar a entrada do novo milênio, convocou
sínodos episcopais para os cinco continentes. Foi uma surpreendente
oportunidade para identificar os desafios nas diversas regiões
e suscitar na Igreja o discernimento e o zelo sobre o melhor modo
de exercer a sua missão em nosso tempo.
Após o Sínodo
para o Continente Americano, João Paulo 2º publicou
a sua "Exortação Apostólica: Igreja
na América", na qual estabelece grandes linhas para
a evangelização como resposta aos "sinais dos
tempos". Na época, o papa acolheu a solicitação
do sínodo de que fosse elaborado um "Compêndio
de Doutrina Social da Igreja". O texto apresentaria, de forma
sintética, o ensinamento social, "fruto da reflexão
do magistério e expressão do empenho da Igreja,
fiel a Jesus Cristo, na solicitude pelos destinos da humanidade".
Entre as razões
para a sua realização elencava-se a promoção
de uma cultura de solidariedade para estabelecer uma ordem econômica
na qual domine não somente o critério do lucro mas
a procura do bem comum nacional e internacional, da justa distribuição
dos bens e do desenvolvimento integral dos povos. O compêndio
destinava-se a ser um subsídio que permitisse aos seguidores
de Jesus Cristo, diante dos problemas de ordem social, encontrar
caminhos para a ação a serviço da humanidade.
A redação
do compêndio foi confiada ao "Pontifício Conselho
de Justiça e Paz", sob a presidência do cardeal
Francisco Xavier Van Thuan, que tinha passado pela dolorosa experiência
de ficar 12 anos preso nos cárceres do Vietnã e
que, até sua morte, em 2002, dedicou-se com ardor a orientar
a elaboração do texto.
A obra veio à
luz em 25 de outubro de 2004 e representa um dos grandes projetos
do papa João Paulo 2º na seqüência das
encíclicas no campo da doutrina social: "Laborem Exercens"
(1981), "Sollicitudo Rei Socialis" (1987) e "Centesimus
Annus"(1991).
O texto, na sua tradução
em português, a cargo da CNBB, acaba de ser lançado
pela editora Paulinas. Contém 583 parágrafos em
528 páginas, com excelente índice analítico.
A divisão em três partes é bem didática.
A primeira, em quatro capítulos, apresenta o desígnio
de amor de Deus pela humanidade, a missão da Igreja, a
pessoa humana e seus direitos e os princípios e valores
da doutrina social. A segunda percorre sete temas: a família,
o trabalho humano, a vida econômica, a comunidade política,
a comunidade internacional, a preservação do ambiente
e a promoção da paz. A terceira parte explicita
a ação pastoral no campo social e o compromisso
dos cristãos leigos.
A conclusão é
bela e oferece uma visão positiva, que ilumina a história
com a esperança e abre perspectivas para a construção
da "civilização do amor".
Precisamos desses ensinamentos
salutares para enfrentar a miséria e a fome, o comércio
de drogas, a corrupção em todos os ambientes, o
terror e a covardia da violência, a corrida aos armamentos,
a destruição irracional da natureza e o confronto
entre agressões militares e terrorismo vingativo.
A Igreja ensina que
a fé em Deus garante a real possibilidade de superar o
mal e alcançar o bem. No entanto, para tornar a sociedade
mais humana, é preciso revalorizar o mandamento do amor
na vida social. Só uma humanidade onde reine o amor poderá
gozar de uma paz autêntica e duradoura.
Aqui fica nossa gratidão
ao Papa João Paulo 2º, testemunha evangélica
de justiça e de paz, por mais essa preciosa herança
que nos deixou.
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