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Rio São Francisco e a "vida pela vida"

Dom Luciano Mendes de Almeida

     Desde o último dia 26 o bispo diocesano de Barra na Bahia, dom Luiz Flávio Cappio, franciscano, iniciou uma greve de fome em favor da vida do povo ribeirinho e do rio São Francisco. Insiste no projeto de revitalização do rio, contra o projeto de transposição, anunciado pelo governo. Quem é dom frei Luiz?
     É um sacerdote de vida exemplar, totalmente dedicado à sua missão, a quem muito estimo e que merece o apreço de todos nós. Nasceu em Guaratinguetá (SP), em 4 de outubro de 1946. Entrou para a ordem franciscana e foi ordenado sacerdote com 25 anos. Mais tarde seguiu para o sertão da Bahia, onde atua há 30 anos em meio à população ribeirinha. Simples e pobre. Acolhedor. Amados por todos. Tornou-se mais conhecido quando, em 1992, realizou durante um ano, com um pequeno grupo, a peregrinação de barca e a pé percorrendo todo o trajeto da nascente à foz do rio, conscientizando o povo sobre a importância de revitalizar o São Francisco. Sua pregação profética teve enorme alcance ecológico e está na origem do esforço que nos últimos anos fazemos em todo o Brasil, reeducando-nos a respeito do valor da água, dom de Deus.
     Diante da degradação do rio, da omissão dos governantes e da sociedade em promover a revitalização do São Francisco e do recente anúncio de que o presidente Lula pretende implementar o projeto de transposição do rio, dom frei Luiz tomou a decisão, "de livre e espontânea vontade, de entregar sua vida pela vida do rio São Francisco e de seu povo", permanecendo em "greve de fome", caso não se revogue e arquive o projeto de transposição.
     Após dias de oração, dom frei Luiz deu conhecimento a todos do documento em que expressa sua firme decisão. Encontra-se agora na pequena capela em Cabrobó (PE), perto de onde seria iniciada a tomada de água em direção ao norte. A população ribeirinha vem se reunindo ao lado, em solidariedade ao gesto do bispo. Vai crescendo o número das adesões e cartas ao presidente Lula pela revogação.
     Os que conhecemos dom frei Luiz sabemos qual é a sinceridade de seu propósito, o amor que tem ao povo e o anseio de garantir vida para todos. Ao defender a revitalização do São Francisco, revela também seu respeito à natureza na qual reverencia a beleza da criação de Deus.
     A questão do rio São Francisco é antiga e ainda hoje divide posições. A presidência da CNBB acaba de fazer chegar às mãos de dom Luiz, em Cabrobó, carta amiga que, sem ajuizar a oportunidade de sua decisão pessoal, reconhece a generosidade da intenção, oferece a constante oração dos irmãos, a fim de que tenha luz para discernir, e pede, ao mesmo tempo, a Deus que ilumine o governo e a sociedade para uma "solução mais partilhada e convergente em bem dos pobres do Nordeste".
     Dom Luiz Cappio, em seu extremo apelo, escreve que, "caso o documento de revogação chegue quando já não for senhor de meus atos e decisões, peço, por caridade, que me prestem socorro, pois não desejo morrer".
     Meu querido irmão dom Luiz, você escreve que está doando a "vida pela vida". A sua vida, toda vida, é preciosa. A greve da fome é forte demais, não consigo compreendê-la. Mas seu testemunho em favor da vida é mais forte e desperta nossa co-responsabilidade. Precisamos muito de você para, de modo incansável, continuar profetizando, convencendo a todos, revitalizando os rios, salvando a vida do povo e do seu tão "amado São Francisco".

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