Marcha nacional pela reforma agrária
LUCIANO
MENDES DE ALMEIDA
O Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra, criado em 1984, nasceu como resposta aos efeitos negativos
da política agrícola no Brasil. Política que
nos últimos decênios intensificou a mecanização,
privilegiou o agronegócio e causou a expulsão de famílias
do campo e o êxodo para as cidades. Os agricultores, privados
de suas terras, procuraram organizar-se e empenhar-se com coragem
e inteligência para permanecer no campo, garantindo condições
dignas de vida. A causa do MST está ligada à consciência
da própria dignidade de cidadãos e aos direitos e
deveres que daí decorrem. O objetivo mais concreto é
o de uma adequada reforma agrária e agrícola que assegure
a milhões de brasileiros viver e trabalhar na terra. De acordo
com a Constituição de 1988, é preciso que a
terra cumpra sua função social, com o aproveitamento
de grandes propriedades inexploradas, de terras devolutas e de outras
utilizadas apenas para especulação imobiliária.
Vários fatores agravam a situação:
a) cresceu a pobreza rural com a diminuição do apoio
do Estado à pequena agricultura. Desapareceram nos últimos
15 anos mais de 900 mil propriedades com menos de cem hectares;
b) a propriedade da terra ficou ainda mais concentrada, aumentando
o número de fazendas com mais de 2.000 hectares; c) agravou-se
a crise social devido ao desemprego nas cidades e à falta
de opção de trabalho no campo. Hoje, 4,5 milhões
de famílias, com 12 milhões de pessoas, aguardam uma
justa reforma agrária; d) a implantação de
grandes propriedades modernizadas, voltadas prioritariamente à
exportação, dá prevalência ao lucro das
empresas, descuidando das exigências sociais e lesando a natureza
com investimentos predatórios.
A desigualdade cada vez maior entre
os ricos e os pobres gerou a tensão social e o clima de conflito
e de violência. Mais triste é o desrespeito à
lei por parte de fazendeiros que armam jagunços e comandam
agressões contra assentados, com despejo e destruição
de cabanas, espancamentos e assassinatos. Como esquecer as milhares
de vítimas dessa ação covarde e quase sempre
impune? Os recentes homicídios realizados por pistoleiros
contra a irmã Dorothy Stang e outros companheiros revelam
a urgência de uma solução governamental. A questão
agrária não-resolvida pesa sobre a consciência
de nossos governantes e de toda a sociedade brasileira.
É nesse contexto que acontece
a atual Marcha Nacional pela Reforma Agrária dos Trabalhadores
Rurais sem Terra. Expressa o justo anseio e clamor de milhões
de brasileiros. A coluna de 10.000 marchantes partiu de Goiânia
e, após 20 dias de caminhada e 300 km de percurso, aproxima-se
de Brasília de modo ordeiro e pacífico. É grande
a expectativa de que diante da justa reivindicação
o governo cumpra, enfim, a meta do Plano Nacional de Reforma Agrária
de assentar 400 mil famílias até 2006. Passados dois
anos, não se atingiu ainda o número de 80 mil famílias.
O Projeto Nacional de Desenvolvimento precisa realizar o assentamento
programado, que privilegia a agroindústria cooperativada,
a geração de empregos, a distribuição
de renda, a produção com qualidade de alimentos e
o respeito ao ambiente.
Motivados pelas exigências da
cidadania e pelo ensino social da Igreja, procuremos unir nossas
energias pelo bem comum e cooperar para a realização
de tão esperada reforma, que há de alegrar nosso povo
e consolidar a democracia participativa, a solidariedade e a paz
social.