Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
fato de discípulos de Cristo terem custado
a crer na ressurreição do Mestre
foi até providencial, dado que as aparições
do Divino Ressuscitado fixaram definitivamente
a fé de seus epígonos. Não
foi apenas São Tomé quem duvidou,
pois, dos apóstolos ficou registrado no
Evangelho que se lhes parecia desatino os relatos
das mulheres e não acreditaram nelas (Lc
24,11). Madalena disse a Pedro e a João:
“Tiraram o Senhor do sepulcro e não
sabemos onde o puseram”, o que mostra que
ela também vacilou.
O próprio São João diz que
“eles não tinham ainda compreendido
que, segundo as Escrituras, ele devia ressuscitar
dos mortos” (Jo 20,9). Deste modo, as manifestações
visíveis de Jesus tiraram seus seguidores
da incredulidade para os transformar em testemunhos
de que ele ressurgira e estava vivo. Dentro deste
contexto é que se situa o encontro dele
com Cléofas e seu companheiro que caminhavam
para Emaús, distante trinta quilômetros
de Jerusalém.
Conversavam sobre os últimos acontecimentos
ocorridos na Capital não como quem tivesse
fé, mais como assustados por tudo que ali
acontecera. Cristo se aproxima como um peregrino
e toma conhecimento da perturbação
daqueles viandantes, cuja fé havia quase
de todo desvanecido. Estavam tristes porque lhes
faltava uma crença profunda na pessoa do
Redentor. A descrença deles foi veementemente
repreendida por Cristo: “Como sois sem inteligência
e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram”
(v 25)! Jesus os doutrina, mas eles só
terão os olhos abertos quando Ele benzeu
e partiu o pão (v.31).
Há um liame profundo entre a Eucaristia
e a fé. A fé em Cristo ressuscitado
é absolutamente necessária ao cristão.
Sem ela não há salvação.
Para fortalecer e aumentar a fé, o batizado
tem a Eucaristia. Este sacramento imerge o cristão
no mistério redentor o qual compreende
a paixão e ressurreição do
Salvador. Esta fé está em íntima
ligação com o amor ao próximo.
O que fez os discípulos de Emaús
superar sua descrença foi sua fidalguia
com o peregrino que se lhes viera ao encontro.
Convidaram-no a ficar com eles, pois o dia declinava
e lhe ofereceram gentilmente uma Ceia.
Tal generosidade não ficou sem recompensa,
dado que, quando Jesus desaparece, eles estavam
inundados na luz de uma fé inabalável.
É, então, que surge mais uma lição
que eles nos legaram, pois puderam afirmar um
ao outro: “Não estava ardendo o nosso
coração quando ele nos falava pelo
caminho e nos explicava as Escrturas?” (v.
32). Eles tiveram a ventura de escutar Jesus com
toda atenção e suas palavras penetraram,
em ondas de júbilo, em seus corações.
Ouvir a palavra de Deus envolve o ser pensante
em torrentes de gáudio, desde que se esteja
atento em escutá-la. Esta palavra divina
vem a cada um através das Escrituras lidas
com amor, sobretudo quando acolhida nas celebrações
litúrgicas. Dela são instrumentos
os pais e, se os filhos, ainda que adultos escutassem
seus progenitores como representantes de Deus,
o mundo seria muito melhor.
Palavra do Ser Supremo vem ainda através
dos jornais, revistas e sites católicos,
das redes de televisão que com tanto sacrifício
a Igreja vem mantendo no ar, mas, infelizmente,
quantos preferem as diabólicas novelas,
os filmes satânicos, os programas lascivos
de outras emissoras! Muito se esquece de outro
veículo de que Deus se serve que é
a voz da própria consciência. Por
vezes amarga como o fel, ou seja, o remorso após
uma má ação praticada; outras
vezes, deliciosa como o mel, isto é, logo
que se realiza algum bem.
Além disto, como diz a Bíblia, as
inspirações do Espírito Santo
que chegam a cada um com gemidos inefáveis,
incitando as boas ações, a fuga
das ocasiões de pecado, o cumprimento perfeito
do dever de cada hora, levando a uma oração
mais meditada, refletida, feita com muita unção.
Cumpre, porém, conservar a palavra no coração
e agir em conseqüência como fizeram
os discípulos de Emaús que “imediatamente
se levantaram e voltaram para Jerusalém”
para anunciarem que Jesus estava vivo.
A fim de que a palavra produza efeitos benéficos
é preciso vencer a preguiça, a distração,
a inconstância, as paixões. Cada
ser humano é um viandante neste mundo e,
como Cléofas e seu companheiro, vitimado
tantas vezes pelas dúvidas e pela tristeza.
Feliz, porém, quem se encontra com Jesus,
pois a luminosidade da fé e da esperança
aclararão todos os seus caminhos.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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