Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus
ensinou o valor da oração, do trabalho
e da humildade, que geram discrição
e alegria interior (Mt 11,25-30). Lembra-nos Ele
que a prece é um elã do coração
que fala a Deus. Deve estar inscrita no coração
do ser racional e é o centro da existência
de todo batizado: “Vinde a mim”. Ela
une o cristão ao Redentor. Cumpre que a
prece impregne toda a vida do seguidor de Cristo
e constitua prioridade para aqueles que procuram
as coisas celestes e não as da terra.
A oração é a resposta ao
chamado de Jesus. É, antes de tudo e sobretudo,
uma confiança total no Salvador: “Eu
vos darei descanso”. Os momentos de prece
são os tempos privilegiados das horas do
dia. Em toda parte cremos firmemente que Deus
está presente. A oração gera
o amor ao trabalho, que é um valor humano
e cristão e o Mestre divino foi claro:
“Vós que estais cansados e fatigados
sob o peso dos vossos fardos”. O labor cotidiano
estimula a criatividade.
A vida espiritual, deste modo, se torna uma arte,
cujas atitudes fundamentais são escutar,
ser humilde, praticar a discrição,
irradiar alegria. Escutar a Deus que fala lá
no íntimo do ser racional e oferece amparo.
Aquele que O escuta é quem O ama verdadeiramente.
Donde uma total disponibilidade para fazer a Sua
vontade: “Tomai sobre vós o meu jugo”.
Daí um silêncio interior que clama
para o esquecimento de si mesmo e imerge na beatitude
do Filho de Deus.
Este preceituou também: “Aprendei
de mim, porque sou manso e humilde de coração”.
Ser humilde é viver na abertura total ao
apelo do Senhor, marchar nos passos de Cristo
até o despojamento da Cruz. Ser humilde
supõe viver os doze graus desta virtude
na alheta de São Bento. O primeiro grau
da humildade consiste em que se ponha sempre diante
dos olhos o temor de Deus e se esteja, continuamente,
lembrado de tudo o que Ele ordenou. O segundo
grau é viver nas ações aquela
palavra do Senhor: "Não vim fazer
a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou".
O terceiro grau está em imitar Jesus de
quem disse o Apóstolo: "Fez-se obediente
até a morte". O quarto grau consiste
em que, no exercício dessa mesma obediência,
se abrace a paciência, com ânimo sereno,
nas coisas duras e adversas, ainda mesmo que se
recebam injúrias, e, suportando tudo, se
persevere, pois diz a Escritura: "Aquele
que perseverar até o fim será salvo”.
O quinto grau da humildade versa sobre reconhecimento
das próprias faltas, segundo as Escrituras
que dizem: "Confessai ao Senhor porque ele
é bom, porque sua misericórdia é
eterna".
O sexto grau cifra-se em que se esteja contente
com o que há de mais desprezível
e com a situação mais penosa e,
em tudo que a cada um seja ordenado fazer, este
se considere indigno operário. O sétimo
grau da humildade está em que cada um se
diga inferior e mais abjeto de todos, não
só com a boca, mas que também o
creia no íntimo pulsar do coração,
humilhando-se a si mesmo. O oitavo grau da humildade
está em que só se faça o
que é prescrito de acordo com o estado
de vida de cada um e os exemplos dos santos.
O nono grau cifra-se em que se controle a própria
língua, entregando-se ao silêncio;
pois mostra a Escritura que "no muito falar
não se foge ao pecado" e "aquele
que fala muito não se encaminhará
bem sobre a terra". O décimo grau
consiste em que não se seja fácil
e pronto ao riso, porque está escrito:
"O estulto eleva sua voz quando ri".
O undécimo grau consiste em que, quando
se falar, fazê-lo suavemente, humildemente
e com gravidade, com poucas e razoáveis
palavras e não em alta voz. O duodécimo
grau da humildade se cifra em que não só
no coração se tenha a humildade,
mas se deixe que ela transpareça sempre
em todos os gestos e ações. Sem
dúvida que, quem assim agir, chega a uma
eminente santidade, vivendo numa discrição
admirável. Atinge-se então o descanso,
fruto de uma fé inabalável, de uma
esperança viva e de um irradiante amor
a Deus e ao próximo. Deste modo se consegue
a paz oferecida por Cristo: “Encontrareis
descanso”.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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