Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Tão
prodigiosa é a multiplicação
dos pães realizada por Jesus (Mt 14,13-21)
que alguns pormenores passam, por vezes, desapercebidos.
Os discípulos não tinham mais do
que cinco pães e ali estavam, “num
lugar deserto e apartado”, cerca de “cinco
mil homens, sem contar as mulheres e as crianças”.
Jesus tomou aqueles pães “ergueu
os olhos ao céu, pronunciou a bênção
e os partiu”. Esta atitude tão pedagógica
lembra, sem dúvida, a sentença do
salmo: “Levanto os olhos para vós,
que habitais nos céus" (Sl 122,1).
Na verdade, aquela era uma situação
não de abundância, mas de penúria,
de fome. Quantos, numa circunstância como
esta, se põem a lamentar, se entregam ao
desânimo e, até, se rebelam contra
o Criador, como aliás aconteceu com o povo
de Deus no deserto, o qual se exasperou, e murmurou
contra Javé (Ex 16, 2-3; Num 11, 4-6).
Cristo ensina que em tal momento, pelo contrário,
total deve ser a confiança no Pai celeste.
Jesus não se pôs a prantear, mas
se dirigiu à fonte de todo bem, como proclamaria
São Tiago: "Toda dádiva boa
e todo dom perfeito vêm de cima: descem
do Pai das luzes, no qual não há
mudança, nem mesmo aparência de instabilidade"
(Tg 1,17).
Jesus nos mostra que devemos sempre abrir caminhos
à bondade divina que oferece sempre com
abundância as suas graças. Registrou
São Mateus: “Todos comeram até
à saciedade e dos pedaços que sobejaram
levantaram dozes cestos deles”. Se o cristão,
no lugar deplorar o que não tem, se voltasse
para Deus, agradecendo o que possui, a própria
existência seria vista sob outra perspectiva
e fatos maravilhosos se dariam em seu derredor.
Muitos santos que realizaram feitos notáveis
proclamaram que nunca duvidaram da Providência
divina e sempre a bendisseram por tudo que Deus
lhes havia concedido. Um outro detalhe é
que Cristo multiplicou os pães não
para si, mas para os outros. Não pedira
ao Pai algo para ele mesmo comer, mas para distribuir
aos que ali se achavam num gesto grandioso de
amor. Como difere a atitude de Jesus do jeito
interesseiro daqueles que só pensam em
si! Adite-se que a narrativa de São Mateus
comporta cinco aspectos importantes. Primeiro,
o horizonte dos discípulos era fechado,
limitado. Disseram a Jesus “Despede as turbas
para que vão às aldeias comprar
alimento”.
Eles dividiam cinco
por cinco mil e nem migalha sobraria para cada
um dos presentes. No entanto, estava ali entre
eles aquele que já tinha operado tantos
milagres e dado provas de um poder imenso. Este,
ao invés de dividir, multiplicaria e distribuiria
com fartura para saciar toda a multidão.
Segundo, todos, ali no deserto, estavam tão
absortos nas palavras do Mestre que até
se esqueceram de sua subsistência. Hoje,
no bulício de um mundo hedonista, muitos
perderam a noção do deserto. É
claro que a significação do deserto
está ligada à do silêncio
e do despojamento para se concentrar na tertúlia
com Deus. Coração a coração,
um no Um, eis o que este Deus ama. O Ser Supremo
detesta tudo o que é estranho a esta unidade.
O Criador arrasta
e atrai para a unidade. Procurar Deus no deserto
não significa fugir do mundo; há
que se aprender a solidão interior, apreender
o sentido do deserto interior, seja onde quer
que se esteja. O deserto interior só na
aparência se opõe a uma vida entre
os homens. Ao escutar Jesus num silêncio
profundo, todos ali se unificaram em torno dele
e todos se uniram num único alimento que
lhes foi distribuído. Em terceiro lugar,
é de se notar que todos que ali se achavam
haviam procurado Jesus e O encontraram.
O Evangelista deu
o detalhe: Cristo havia se retirado numa barca,
mas “as turbas, ao sabê-lo, seguiram-no
a pé, da cidade”. Para se deparar
com o divino Redentor, há necessidade de
um esforço pessoal, que significa romper
com o mundo e suas ilusões, vencer a indolência
e ir, resoluto, até Aquele que cura e alimenta.
O quarto aspecto é o modo como Jesus recebe
quem vai a seu encalço.
Diz São Mateus:
“Ao desembarcar e ao ver aquela multidão,
condoeu-se dela”. Finalmente, merece reparo
a ordem de Cristo aos discípulos: “Dai-lhes
vós mesmo de comer”. Quantos famintos
pelas estradas da vida, porque não há
aqueles que os levem até Cristo no silêncio
das Igrejas, lá onde Ele mesmo é
o Pão que se multiplicou na Eucaristia
para conduzir multidões à Casa do
Pai!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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