Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As
parábolas dos vinhateiros fixam uma das
lições mais importantes da pregação
de Jesus que é a necessidade de uma vida
espiritual produtiva (Mt 21, 33-43). Aos sumos
sacerdotes e aos anciãos do povo Cristo
advertiu: “O reino de Deus vos será
tirado e será entregue a um povo que produzirá
frutos” (v.43). Aliás, isto é
condição para ser seu seguidor:
“Nisto é glorificado meu Pai, para
que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”(Jo
15,8). Acentuou: "Não fostes vós
que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí
para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto
permaneça" (Jo 15,16).
Trata-se de um desafio sublime para o cristão.
São Paulo decodificou magnificamente tal
lição e ensinou aos Gálatas
que são estes os frutos: paz, alegria,
longanimidade, bondade, benignidade, paciência,
mansidão, modéstia, castidade, continência,
caridade, como se lê na Vulgata (Gl 5,22-23).
O termo fruto aparece sessenta e seis vezes no
Novo Testamento o que lembra a importância
deste tema bíblico. No Antigo Testamento,
outrossim, se multiplica esta imagem, pois Deus
espera sempre frutos de sua vinha.
Segundo Davi o justo "é como a árvore
plantada na margem das águas correntes:
dá fruto na época própria,
sua folhagem não murchará jamais.
Tudo o que empreende, prospera".(Sl 1,3).
Bela a metáfora do Livro dos Provérbios:
"O fruto do justo é uma árvore
de vida” (Pr 11,30). Segundo o Profeta Jeremias,
este será o critério da recompensa
do Onipotente, ao qual assim se dirige: "Sois
grande em vossos desígnios, poderoso em
vossas realizações e vossos olhos
se acham abertos para todos os destinos dos homens,
a fim de retribuir a cada um de acordo com sua
conduta e os frutos de seus atos"(Jr 32,19).
Entretanto, Deus que espera uma existência
frutuosa de cada um, oferece os meios para que
tal se realize. Lê-se, com efeito, no Profeta
Oséias o que o próprio Ser Supremo
afirma: “Eu sou como o cipreste sempre verde:
graças a mim é que produzes fruto”
(Os 14,8). Para isto é preciso que o ser
pensante esteja enraizado em Deus, como está
no Livro da Sabedoria "Porque conhecer-vos,
Senhor, é a perfeita justiça, e
conhecer vosso poder é a raiz da imortalidade"
(Sb 15,3).
Eis por que afirma o livro dos Provérbios
que “a raiz dos justos não será
abalada" (Pr 12,3). Cumpre, assim, cultivar
raízes espirituais. Isto se dá quando
o fiel procura penetrar fundo na Palavra de Deus.
Lançar raízes em Jesus e construir
a existência nele, solidificado na fé
e servindo-o com grande ardor e perseverança.
Deste modo, se arrancam as ervas más dos
vícios e das paixões que impedem
a produção de frutos opimos para
a eternidade.
Entre as plantas venenosas que paralisam a vida
cristã se arrolem o apego às coisas
passageiras desta vida; a inquietação,
a qual é resultado da falta de confiança
no Pai do céu; os prazeres mundanos que
bestializam o batizado. Contudo, a presença
da erva má é sempre sinal de negligência
espiritual, falta de oração, de
meditação, de caridade fraterna.
Quando não se coopera com a graça
divina todos os males acontecem. A união
com Jesus deve ser fecunda, generosa, na administração
sábia dos problemas cotidianos, dos sofrimentos
diários. De fato, disse o Mestre divino:
“Todo sarmento que dá fruto, o Pai
o poda a fim de que dê mais fruto”
(Jo, 15,2).
A ascese, a mortificação são,
deste modo, também um recurso para frutescer,
resultando uma atmosfera espiritual fecunda. Trata-se
de se cultivar a alma pelas boas ações
alimentadas por uma vida sacramental intensa.
Cada um deve ser um jardineiro a cuidar do seu
jardim interior. Esta experiência de Deus
vivida na docilidade total ao Espírito
Santo se transforma numa atitude permanente, num
conjunto de hábitos intelectuais e psíquicos.
O triunfo, contudo, não vem das forças
humanas, mas do auxílio divino que nunca
é negado a quem se firma em Cristo, o Vinhateiro
sábio e poderoso.
Deste modo, é preciso nunca querer usar
bazooka ou kalachnikov, pois os instrumentos para
produzir frutos são as armas do espírito
de que fala São Paulo: “Despojemo-nos
das obras das trevas e vistamo-nos das armas da
luz" (Rm 13,12). Com tais armas a semente
recebida no Batismo produzirá frutos abundantes,
pois asseverou Jesus: “Aqueles que recebem
a semente em terra boa escutam a palavra, acolhem-na
e dão fruto, trinta, sessenta e cem por
um" (Mc 4,20). Tal deve ser o ideal do verdadeiro
cristão.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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