Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Desde
os primeiros tempos do cristianismo nunca foram
esquecidas as preces pelos falecidos. No momento
de morrer Santa Mônica, mãe de Santo
Agostinho, lhe pediu para se lembrar dela “no
altar do Senhor, seja lá onde ele estivesse”.
Quando se vasculham os testamentos antigos se
percebe que príncipes, reis, bispos, fiéis
em geral pedem em seus testamentos orações
pela salvação de sua alma. Em 998
Santo Odilon, abade de Cluny, ordenou a todos
os mosteiros dependentes de sua abadia celebrar
um ofício no dia seguinte à solenidade
de Todos os Santos, “em memória de
todos que tinham repousado em Cristo”.
Este
uso se expandiu por toda a Igreja e permanece
até hoje. Todos são convidados a
participar da Santa Missa, manifestando um vasto
movimento de solidariedade espiritual. Multidões
acorrem aos cemitérios e isto revigora
a fé na Comunhão dos Santos,5 unindo
a Igreja viandante da terra à Igreja sofredora
do purgatório e à Igreja gloriosa
no céu. Neste dia se honram os mortos que
já são os santos do céu e
os fiéis da Igreja padecente, todos rezando
pelas almas do Purgatório, para que, também
elas por nós orem, se ali um dia estivermos.
Além disto, o Dia de Finados convida a
uma reflexão profunda sobre o significado
da morte.
Ao vir a este mundo o ser racional inicia também
sua viagem para deixar um dia esta terra. Nesta
caminhada ele luta pela preservação
da vida e muitos são os instantes críticos
que se lhe surgem através dos anos até
ele percebe que suas forças se exaurem.
Em qualquer momento, mesmo em plena juventude,
uma doença maligna pode cortar sua trajetória
terrena. No mundo conturbado de hoje, muitos,
infelizmente, os desastres e quem sai numa viagem
pode não retornar ao lar e, por culpa do
próprio homem, as enfermidades se multiplicam
por força inclusive da agressão
à própria natureza. Com o passar
do tempo lá se vai a mocidade, a saúde
e os entes queridos que desaparecem! Nos últimos
dias de uma vida longa o homem poderia parecer
uma flor que murchou, uma árvore sem folhas.
O cansaço, as desilusões, os achaques,
as indisposições, as moléstias,
tudo o faz parecer uma sombra que vai penetrar
as paragens das sombras. As últimas palavras
de Cristo na Cruz devem ser sempre uma das preces
do cristão: “Pai em tuas mãos
entrego o meu espírito”. É
esta volta feliz para junto do Criador que gera
esta certeza de que somente depois da morte que
haverá luz, descanso, recompensa, gozo,
a ventura sem fel. É lá no reino
do Pai que imperará a justiça para
sempre. Lá haverá a colheita abundante
dos atos virtuosos.
Na visão beatífica uma alegria sem
fim. O homem anoitece no sepulcro para amanhecer
numa eternidade feliz, se ele soube amar a Deus
e seguir os seus preceitos. A morte não
derrota o cristão verdadeiro, mas, pelo
contrário, é sua vitória,
pois ela abre uma porta para uma existência
ditosa junto do Ser Supremo. Para além
da sepultura horizontes lucentes se estendem.
Para aquele que foi bom, justo, misericordioso,
temente a Deus é o momento sublime da recompensa,
de receber o galardão pelos atos bons de
sua vida terrena.
É o instante de receber o tesouro acumulado
no céu, conforme orientara o próprio
Cristo (Lc 12,33). Feliz o homem que nos extremos
limites de sua existência pode repousar
tranqüilo nas mãos de seu Pai do céu.
Para isto é preciso que se viva o belo
epitáfio de Duns Scoto: “Semel sepultus,
bis mortuus”, ou seja, uma vez sepultado,
mas duas vezes morto. Com efeito, é preciso
estar em vida morto para os prazeres ilícitos,
para o vício, para o pecado, para o mal.
Como muito bem disse o poeta, “mortos não
são aqueles que jazem numa tumba fria,
mortos são os que têm morta a alma
e vivem todavia”. Estes foram sepultados
duas vezes e não uma, pois já jaziam
na catacumba de seus delíquios, de sua
maldade, de sua perversidade.
A revelação da boa morte é
a boa vida. A morte para os que não seguiram
a Cristo é terrível: uma vida que
se acaba e uma eternidade infeliz que se inicia!
Que aflição, que angústia
para quem não correspondeu aos desígnios
divinos e não cumpriu sua missão
neste mundo! No momento da morte o que vai dar
desgosto a cada um é o que buscou por seu
próprio gosto e, muitas vezes, com tanto
sacrifício inútil em busca de gozos
passageiros, ilusórios. Quantos gostariam
de voltar no tempo para refazer seus atos, mas
já é tarde.
Morrer em graça e ver garantida a salvação,
eis o que mais deve preocupar quem tem bom senso
neste mundo, pois tudo mais é secundário
e só vai causar ansiedade ao se deixar
esta terra. Rezar pelos mortos e se preparar para
a morte, eis a mensagem do dia dois de novembro.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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