Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
cura do cego de nascença que provocou tanta
polêmica entre os vizinhos do miraculado
e entre os fariseus (Jo 9) oferece uma maravilhosa
lição: crer em Jesus é estar
curado da cegueira espiritual. Com efeito, Cristo
tendo tomado conhecimento de que tinham expulsado
da Sinagoga seu agraciado, ao se encontrar com
ele, indagou: “Crês tu no Filho de
Deus? Respondeu ele: “E quem é, Senhor,
para que eu creia nele”? Disse-lhe Jesus:
“Tu o vês; é este mesmo que
está falando contigo”.
Então
exclamou: “Creio, Senhor!”E o adorou”
(Jo 9, 35-39). A fé abre os olhos da alma
e é pré-requisito para se aproximar
do Mestre divino e dele haurir todos as graças.
Introduz o crente no mistério redentor
como condição básica da existência
cristã. Leva o ser humano a admitir que
Jesus de Nazaré é “o Cristo,
o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).
Pode-se
então usufruir dos dons do perdão,
da justiça que Ele com sua morte e ressurreição
oferece a todos que O acolhem. Ele é o
único mediador em cujo nome se pode encontrar
remissão dos pecados. Aceitá-lo
implica encontrar o caminho que leva à
eternidade beatífica. Como ensina São
Paulo, “não há senão
um só Deus, um só é também
o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo
Jesus (1 Tm 25).
Cumpre,
deste modo, purificar, apurar e confirmar a fé
em Jesus Cristo, para que, crendo, se tenha a
vida em seu nome, como bem se expressou São
João (Jo 20,31). Quem bem analisa o diálogo
do cego com Cristo se percebe que houve da parte
daquele que fora curado uma atitude de abertura,
de acolhida, de disponibilidade que o levou a
ver a Luz que veio a este mundo para iluminar
os que estavam nas trevas. Os fariseus, fechados
em si mesmos, na sua empáfia e nas suas
falsas teorias, continuaram cegos e, como eles,
muitos coetâneos de Jesus (Jo 1,11). Optar,
porém, por Jesus significa sair da escuridão,
escolher a vida e não a morte.
Trata-se
de um movimento de total união à
pessoa do Redentor que leva a um rompimento com
a mentira, com a falsidade, com o embuste que
entenebrecem o ser pensante e o envolvem nas sombras
do erro. É preciso perspicácia espiritual
para se perceber a grandeza de se poder dizer
discípulo de Cristo, entendida a fé
nele como dom total de si numa aquiescência
completa de sua doutrina.
São
João, no episódio do cego miraculado,
diz que ele se prostrou diante de Jesus. É
necessário, de fato, celebrar o Redentor
num culto de autêntico amor, como preconizou
o Apóstolo aos Filipenses: “Para
que, no nome de Jesus, todo o joelho se dobre,
nos céus, na terra, e abaixo da terra,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo
é o senhor para glória de Deus Pai”
(Fl 2,10-11). Daí toda atenção
que se deve ter durante as celebrações
litúrgicas, as quais vão alimentando
uma fé laudatória naquele que por
todos padeceu e se sacrificou. São louvores
cristologizados que tanto agradam ao Pai.
Donde
a importância da solene doxologia da Missa:
«Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós,
Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito
Santo, toda honra e toda glória, Fórmula
trinitária esplêndida que assinala
magnificamente a união com Verbo Encarnado
como caminho para dar glória à divindade
e santificar a vida de cada um.
Eis
por que, proferida unicamente pelo celebrante,
os fiéis, como acontece desde os primórdios
da Igreja, respondem com um entusiástico
Amém, palavra hebraica que indica uma afirmação,
e uma adesão total àquele louvor.
Quem, porém, crê e vê Jesus
e o adora deve crescer progressivamente nele,
no sentido de se “tornar cada um perfeito
em Cristo” (Cl 1,28).
Isto
significa que o eu carnal é suplantado
pelo Redentor como aconteceu com São Paulo:
“Fui crucificado junto com Cristo”
(Gl 2,20). Deste modo, o cristão se envolve
na mais completa luminosidade, dado que Jesus
afirmou: “ Eu sou a luz do mundo; quem me
segue não anda nas trevas, mas terá
a luz da vida” ( Jo 8,12). É o caminhar
nos passos do Redentor que veio a este mundo obscuro
de morte para levar consigo para cima todos os
que se unem a Ele, conduzindo-os para a casa do
Pai.
É
assim que o batizado deve viver uma espiritualidade
cristocêntrica, tendo olhos para ver Jesus
também em cada irmão no serviço
humilde do próximo, no luminoso caminho
que leva à vida eterna, tornando-se lucífluo,
lucipotente, lembrado do que disse o Mestre divino:
“Vós sois a luz do mundo”.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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