Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus
Cristo não poderia ser mais claro ao caracterizar
quem é seu discípulo: “Quem
quiser vir após mim, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Seu
epígono deveria sempre estar ligado à
sua cruz, à sombra da qual os deveres penosos,
que são inerentes à missão
de cada um nesta terra, se tornam suaves.
Por maiores que sejam os limites humanos, a fraqueza,
a incapacidade, as lutas diárias, as tensões,
as preocupações, nada pode desencorajar
o cristão. Trata-se de descobrir deste
modo a maneira superior de viver. É o encontro
do humano no divino que tudo dulcifica, mas isto
supõe coragem, determinação,
firmeza, perseverança. Na via dolorosa
Simão de Cirene ajudou a Jesus a carregar
a cruz, mas não era sua cruz pessoal. Cristo
deu o exemplo, mas quer que o seu seguidor não
rejeite os sofrimentos, as tribulações
que Deus reserva para cada um como uma etapa de
purificação e espiritualização.
É de se notar que carregando sua cruz,
Jesus disse às mulheres que batiam no peito
e se lamentavam por ele: “Filhas de Jerusalém,
não choreis por mim, mas chorai antes por
vós mesmas e por vossos filhos” (Lc
23,28). De fato, não adiante se condoer
das amarguras do Mestre, se há uma recusa
do penoso esforço cotidiano. Levar a cruz
pessoal não significa aderir a uma fatalidade
devida às circunstâncias da existência
nesta terra, cujo curso não se pode mudar,
mas deve ser um ato voluntário que se aceita
em vista ao próprio bem próprio
e do próximo.
Por vezes um fatalismo deletério se apossa
de muitos que, deste modo, malbaratam as riquezas
que jorram da sublimação dos desgostos
de cada hora. Inquietações, dificuldades
financeiras, doenças, a dureza do labor
diário, tudo pode ser um tormento dia e
noite constituem a cruz permitida por Deus. Nem
sempre são lembradas as palavras de São
Pedro que convida a lançar para Deus todos
os anseios, porque ele cuida de seus filhos (1
Pd 5,7).
Trata-se, pois, não de uma recusa, mas
de um pedido de ajuda para valorizar qualquer
aflição natural a quem está
no exílio, ou como se diz na Salve Rainha,
“num vale de lágrimas”. O resultado
é faustoso, pois Cristo asseverou: “Encontrareis
o repouso para vossas almas” (Mt 11,29).
Não há, deste modo, para o cristão
o endeusamento estóico do sofrimento, do
dolorismo, da passividade perante os males, mas
na luta contra a dor, há o reconhecimento
de que esta, enquanto permitida por Deus tem um
valor imenso para a eternidade. Felizes os que
sabem fazer de suas contrariedades atos de amor.
Então se compreendem as palavras de Santa
Teresa do Menino Jesus: “O sofrer passa,
ter sofrido permanece eternamente”. Dá-se
então uma total disponibilidade à
vontade divina. Verifica-se deste modo uma comunhão-participação
com Cristo crucificado, dando o cristão
uma aplicação transcendental a suas
dores. Foi o que ocorreu com São Paulo:
"Agora me alegro nos sofrimentos suportados
por vós. O que falta às tribulações
de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo
que é a Igreja" (Cl 1,24). O Apóstolo
mostra que ele não tinha medo, revolta,
mera resignação perante as amarguras,
mas sim uma aceitação reparadora,
uma adesão redentora.
Adite-se que o sofrimento tem um caráter
pedagógico, o que Musset estressou magnificamente
nesta sentença: “O homem é
um aprendiz, a dor o seu mestre, e ninguém
se conhece enquanto não sofreu”.
É que o sofrimento é um convite
à superação. Leva à
verdadeira escala de valores, estimulando a fé,
a esperança e o amor a Deus e ao próximo.
Quantas conversões se dão exatamente
porque sofrimentos são oferecidos para
que pecadores retornem ao bom caminho! No entardecer
da caminhada do cristão neste mundo, feliz
o que tiver carregado com paciência a cruz
de cada dia, pois se dará o que afirmou
São Pedro: "Alegrai-vos em ser participantes
dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais
alegrar e exultar no dia em que for manifestada
sua glória". (1 Pd 4,13).
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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