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NOVO ANO LITÚRGICO


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    Com o primeiro domingo do Advento começa um novo Ano Litúrgico. Advento é um termo latino que designa o ato de chegar. Os poetas romanos falaram da “chegada do dia”. O que a Igreja celebra é o advento de Jesus por ocasião de seu Natal, festa que deve ser, piedosa e cuidadosamente, preparada. O ciclo litúrgico terminou com a solenidade de Cristo Rei e começa com uma meditação sobre o segundo advento do Redentor na parusia, ou seja, na sua volta gloriosa, no final dos tempos, para estar presente ao Juízo Final.
    Por isto cumpre uma atenção especial à vigilância. Todo o Antigo Testamento foi uma preparação para o instante da Encarnação do Verbo Divino. Eis por que aparecem no Advento as leituras sobretudo dos Profetas Isaías, Miquéias e Malaquias atinentes à chegada do Messias. Surgem a figura de João Batista que preparou os caminhos do Senhor e de Maria, a mãe de Deus, Imaculada em sua Conceição.
    Apesar da cor roxa própria do Advento, domina, porém, uma atenta alegria tanto que no terceiro domingo deste tempo se podem usar paramentos róseos. Isto porque se trata de um período no qual borbulha nos corações dos fiéis a esperança, atitude fundamental de todos os que crêem na redenção da humanidade. Cumpre então ao batizado ser irrepreensível, mas na mais total confiança em Deus que quer a salvação de todos. No horizonte da História refulgiu a Luz que “ilumina todo homem que vem a este mundo”(Jo 1,9).
    Aí o fundamento que a expectativa do Natal oferece. Trata-se de se mergulhar nesta realidade sublime: Deus, Amor infinito, Pai misericordioso, tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho único (Jo 3,16) para que todos tenham a vida em abundância (Jo 10,10). Não se trata de algo ilusório, mas de um fato histórico que é visível no nascimento de Cristo. É preciso, contudo, celebrar esta vinda do Messias em Belém e, depois, no fim dos tempos, numa contínua vigilância, isto é, em estado de sentinela, estado de alerta, velando atentamente para que Cristo possa encontrar preparados os corações para O acolher.
    Thomas Merton escreveu: "A vida espiritual é antes de tudo uma questão de se manter acordados”. Abre-se novamente então o espaço para uma revisão de vida. Mudança para melhor no relacionamento na família, no local de trabalho, em todas as circunstâncias da vida social. As horas passam e muitos levam mecanicamente os muitos contactos de cada hora sem uma abertura para Cristo presente no próximo com quem Jesus se identificou.
    É preciso, de fato, uma vida alimentada pela justiça do Reino de Deus, ajustando cada um sua fé com uma existência na qual há coerência entre o que se crê o comportamento pessoal e social. Mister se faz sair de uma desconstrução interior e exterior para a busca da unidade que é o cerne da conversão para Deus e para Sua presença em todos os acontecimentos. Todas as ações impregnadas de um amor sempre mais intenso e transbordante para com os irmãos e irmãs, sobretudo os mais sofredores. Renovação do julgamento interior para compreender a própria história à luz dos ensinamentos do Mestre divino e não segundo nossas categorias de pensamentos egoístas e parciais.
    Se é verdade que a cicatriz do pecado original desfigura o mundo e lança penumbras no coração este é o contexto do ano que oferece a luminosidade que brilhou em torno de um Presépio. Ecoa neste tempo do Advento o grande clamor: “Vinde Senhor Jesus”! Este anseio deve significar que Ele renovará todos os sentimentos, corrigirá todos os erros.
    A maneira com que cada um viver o Advento condicionará todas as grandes graças que a data do Natal reserva para os que se renovarem nestes dias abençoados. Deve também estar viva o sinal da presença divina em cada ato que se praticar. Jesus é o Emanuel, o Deus conosco. A aliança entre o homem e o Ser Supremo flui da promessa de salvação que os anjos anunciam no Natal: "Hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor" (Lc 2,11).
    Daí esta renovação radical que possibilite os efeitos desta vinda do Verbo Eterno a este mundo, trazendo a verdadeira liberdade e a total cura interior. À generosidade divina é necessário que a resposta humana seja sincera e abrangente, deixando o campo livre para a atuação do poder de Deus que vence toda paralisia espiritual, toda indolência nos caminhos da santidade pessoal.
                                 

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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