Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus,
o Mestre divino, mostrou como o mundo não
é capaz de receber o Espírito da
Verdade e deu o motivo: “porque não
o vê nem o conhece” (Jo 14,17). O
seguidor de Cristo, contudo, O conhece e eis a
razão: ele permanece junto dos seus epígonos
e está dentro deles. É esta realidade
magnífica que precisa sempre e em toda
parte ser vivida intensamente pelos batizados.
Perceber a presença do Divino Espírito
Santo e, muitas vezes, estar em tertúlia
com Ele que habita no íntimo de cada um.
Esta idéia da presença de Deus é
vital no Antigo e no Novo Testamento.
No Gênesis Deus está no Jardim do
Éden e no último livro, o Apocalipse,
se lê, de novo, Deus vindo para morar com
a humanidade. Esta realidade perpassa todo o Livro
Sagrado. O povo de Deus era o povo da presença
do Altíssimo, na tenda no deserto e, depois,
mais tarde, no templo de Jerusalém. É
em torno deste fato que o Livro do Êxodo
está estruturado. Moisés encontra-se
com Javé no Monte Sinai e recebe os Mandamentos.
Anos depois Salomão construiu o templo
no qual a glória do Senhor resplandeceu
(1Reis 8,11). No Novo Testamento São Paulo
decodificou magnificamente esta doutrina e mostrou
que Deus estava presente nos cristãos e
empregou imagens do templo para descrever esta
realidade.
Assim asseverou aos Coríntios: “Vós
não sabeis que sois o templo de Deus que
o Espírito de Deus vive em vós?
Se alguém destrói o templo de Deus,
Deus o destruirá, porque o templo de Deus
é sagrado e vós sois este templo”
(1 Cor 3,16-17). Isto significa que, vivendo no
cristão, o Espírito da Verdade o
transforma não exteriormente, mas interiormente,
levando-o a uma experiência mística
inefável.
O tempo do fiel não é um tempo pobre,
mas de uma riqueza espiritual imensa. Os bens
futuros já se acham antecipados e a presença
do Espírito permite compreender profundamente
a Cristo, único caminho para o Pai. Diante
da hostilidade do mundo os seguidores de Jesus
estão expostos à dúvida,
ao escândalo e ao desânimo. O Espírito,
contudo, os ajuda e lhes explica sua condição
feliz, afortunada, de estar sempre com Jesus.
Espírito da Verdade, ele mostra aos seguidores
de Cristo o erro do mundo, sua vaidade, sua inconsistência,
dando perseverança na recusa do que é
passageiro, ilusório.
Oferece, então, a fortaleza para que tudo
isto se realize na existência de cada um.
Isto é da mais alta importância para
a espiritualização do cristão.
Não basta receber Hóspede tão
sublime, se uma vontade robusta não leva
às últimas conseqüências
tão benéfica presença. A
fortaleza está a serviço da verdade,
do direito, da submissão às inspirações
divinas. De muita coragem precisa o batizado para
viver em função do Espírito
da Verdade, sendo santo e imaculado na sua presença.
Sob suas luzes é vencida a pusilanimidade
para caminhar na grande via da santidade.
Este Espírito quer almas voltadas para
o alto, vigorosas, que não hesitam diante
do bem. Corações magnânimos
que marcham resolutamente para a vida eterna.
Isto supõe o cumprimento ininterrupto do
dever de uma forma austera e com a máxima
regularidade, sem tergiversações,
longe, portanto, das negligências, das infidelidades.
Adite-se que o Espírito da Verdade leva
então à paciência e à
perseverança nas tribulações.
Estas procedem das fraquezas humanas, das doenças,
das incompreensões alheias.
O ser pensante é contingente, limitado.
É preciso então coragem para suportar
tudo com um autodomínio absoluto que leva
à imperturbabilidade, à serenidade.
O Divino Espírito Santo dá esta
fortaleza no batismo com a graça santificante,
fortaleza acrescida, ainda mais, com a recepção
do sacramento da crisma e com os muitos auxílios
a cada instante, impedindo todo tipo de vacilação.
O Espírito da Verdade garante a vitória
contra as forças do mal, gerando uma confiança
absoluta no poder do Deus que mora lá no
fundo do coração de cada um.
O cristão, assim avigorado, pode repetir
sempre com São Paulo: “Eu tudo posso
naquele que me fortifica” (Fil 4,13). Quem
vive em função do Espírito
da Verdade constrói em si o homem interior,
pois Ele conduz a uma espiritualidade profunda.
Cumpre, entretanto, maleabilidade, pois o Espírito
Santo é um artista divino que realiza uma
obra prima, desde que não se coloquem óbices
e se seja dócil, flexível, à
sua ação.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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