Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quanto
mais um cristão progride na vida espiritual,
esta vai se tornando simples. A simplicidade do
espírito é uma conquista, por vezes
árdua por incluir a fuga da dispersão
num mundo que bombardeia através de centenas
de variadas mensagens.
Jesus patenteou ao doutor da lei que, na existência
de quem tem fé, tudo deve se sintetizar
no mandamento maior que é o amor a Deus
sobre todas as coisas, preceito que tem outro
semelhante que é amar ao próximo
como a si mesmo (Mt 22, 34-40). Os fariseus estavam
perdidos num emaranhado de preceitos e interpretações
sutis, mas o Mestre ali estava para tudo simplificar.
A Deus se deve adorar, agradecer, reparar as ofensas
e implorar seu necessário auxílio.
Não pode haver negligência na resposta
ao amor divino. Todo cuidado é pouco para
afastar a preguiça espiritual, ou seja
a acédia, a apatia, a frouxidão.
Tais atitudes levam infalivelmente à tibieza
duramente condenada no Apocalipse pelo próprio
Deus em termos bastante contundentes: "Mas,
como és morno, nem frio nem quente, vou
vomitar-te" (Ap 3,16).
Pior é a atitude de alguns infelizes que
chegam ao ódio de Deus, fruto de um horrípilo
orgulho que cega, obstando que não se vejam
os sinais celestiais nos acontecimentos cotidianos.
Outros, consciente ou inconscientemente, se apartam
do amor ao Ser Supremo pela superstição,
ansiando por fatos surpreendentes como se Deus
fosse um mágico. Alguns se tornam até
idólatras valorizando os bens passageiros
e transitórios deste mundo mais do que
os valores espirituais e endeusando as criaturas
pelas quais preterem o amor eletivo e misericordioso
do Criador. Em conseqüência, a verdadeira
dileção ao próximo fica inteiramente
ou comprometida ou desvirtuada.
O autêntico amor ao semelhante é
importante por conter em si todos os mandamentos
da Lei, dado que o amor não faz nenhum
mal ao outro, como mostrou São Paulo aos
romanos (Rm 13,9-10). O cristianismo é,
deste modo, uma religião do amor. O amor
de Cristo é nosso modelo, porque Ele fez
sempre a vontade do Pai e amou os homens até
dar a sua vida por eles. São Pedro, admiravelmente,
resumiu a vida de Jesus dizendo que “lá
onde ele passava, ele fazia o bem” (Atos
10,38). Eis por que o cristão deve pedir
ao Pai que encha o seu coração com
o Espírito Santo e lhe dê sempre
a correspondência a suas inspirações,
imitando Aquele que ofertou sua vida por todos.
É belo o sacrifício pessoal para
agradar sempre ao Senhor Todo-Poderoso e honrá-lo
na pessoa do próximo. O amor a Deus deve
se expressar no serviço e na obediência
a seus preceitos, seguindo os seus caminhos. Ficam
então comprometidas todas as faculdades
do ser humano num obséquio que redunda
em ventura e glória. Deus, contudo, coloca
esta dileção à prova como
se lê no Deuteronômio: “É
Javé vosso Deus que vos experimentou para
saber se de fato amais a Javé vosso Deus
com todo o vosso coração e com todo
o vosso ser” (Dt 13,4).
No que tange o amor ao próximo cumpre se
ressalte a atenção com os pobres
e os mais necessitados que devem ser objeto de
tratamento caridoso. Respeito e atenção
especial às pessoas idosas e aos deficientes
físicos numa atitude de total boa vontade.
Para com os inimigos à vingança
se deve opor total perdão. Muitas vezes
fica esquecido a amor dos pais aos filhos e destes
para com seus progenitores, o amor conjugal pelo
qual o casal forma unidade que se realiza no oferecimento
recíproco.
É preciso inclusive purificar o diálogo
numa sociedade pluralista como a de hoje, pois
a colisão, o atrito se acham presentes
em tantas circunstâncias da vida social.
Diálogo que não é nivelamento,
mas enriquecimento recíproco. Portanto,
mar imenso de reflexões o mandamento maior!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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