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O FILHO DE DEUS VIVO


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    A confissão de Pedro proclamando a messianidade e a divindade de Cristo (Mt 16,16) apresenta um dos pontos chaves de toda cristologia. É de se notar, inicialmente, que o próprio Jesus utilizou muitas vezes a palavra “pai” para falar de Deus, donde ter fundamento sólido a expressão do Apóstolo, aliás empregada em várias outras passagens do Evangelho. Com efeito, o Redentor foi assim chamado pelo Pai nos instantes do batismo (Mt 3,17) e da transfiguração (Mc 9,7) ; por satanás no episódio das tentações (Mt 4,3), do endemoniado (Mt 8,29) e em outras ocasiões (Mc 3,11); pelos apóstolos na cena da tempestade no Mar de Tiberíades (Mt 14,33); pelos transeuntes lá no Calvário (Mt 27,40); pelo centurião junto da Cruz (Mt 27,54).
    Aliás, uma das acusações dos judeus contra Jesus foi o ter Ele se intitulado Filho de Deus (Jo 19,7), o que mostra que eles mesmos compreenderam que Ele usara tal expressão não no sentido metafórico, figurado, como no Antigo Testamento. O Evangelista Marcos também assim se expressou: "Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus" (Mc 1,1).
    Toda autoridade, influência e prestígio que caracterizam os gestos e palavras de Cristo, desde o início de seu ministério público, se baseiam nesta realidade sublime: Ele é Deus da mesma natureza do Pai, tendo com Ele uma relação particular, única, diferente daquele dos outros filhos de Israel. Notáveis suas palavras diante da profissão de fé de Pedro: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus" (Mt 16,17). Jesus, tinha, portanto, poder absoluto e competência irrestrita, inclusive para estabelecer Pedro como chefe visível de sua Igreja e para fazer dele a pedra sobre a qual ele a edificaria.
    A unicidade e intimidade da relação de Jesus com o Pai do céu aparecem claras nas palavras de São João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16). Eis aí a importantíssima conclusão vivencial da crença firme na filiação divina de Cristo: uma fé viva nesta verdade consoladora, condição fundamental, necessária, para se obter a salvação, “a vida em seu nome” (Jo 20,30-31).
    O novo Catecismo da Igreja mostra que “foi depois da sua Ressurreição que esta filiação divina aparece na força e esplendor de sua humanidade glorificada: “Segundo o Espírito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por sua ressurreição dos mortos” [Rm 1,4; cf At 13,33]. Os Apóstolos puderam confessar: “Vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). O triunfo de Cristo sobre a morte foi a prova definitiva de sua filiação divina. Crer nesta verdade é viver o mistério mesmo do Salvador, é o cerne, a essência da existência cristã.
    Ele, o enviado do Pai, com sua vida, morte e ressurreição trouxe aos homens os dons do perdão, da justiça e do Espírito que santifica (At 2,26; 2 Cor 5,19). Esta fé, porém, implica basicamente a atitude de abertura e de acolhida a tudo que Jesus ensinou. Cumpre uma conversão pessoal, sem reservas, sob pena de ser epidérmica, superficial a crença no Redentor. Crer em Jesus exige empenho fundamental e decisivo de alcance escatológico com que o cristão decide seu destino eterno, optando pela luz ou pelas trevas, pela vida ou pela morte. Trata-se de um movimento de adesão à pessoa de Cristo que inclui ruptura com as trevas, a mentira e o pecado, escolha fundamental por Jesus de tal forma que o batizado pode, realmente, proclamar ser dele discípulo.
    Isto supõe fidelidade, acolhimento e perspicácia espiritual. Fé no Redentor entendida como dom total de si que conduz a um amor sincero e à obediência integral a tudo que Ele preceituou, centralizando todas as atitudes no amor fraterno sem manipulações esdrúxulas do que está nos Evangelhos. Muitos têm aparência de cristãos, mas de fato não o são, pois vivem esquecidos do que o próprio Cristo asseverou: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7,21).
    Em síntese, ser cristão é encontrar em Jesus a única razão de viver, num rompimento corajoso, enérgico com o mundo e seus falsos prazeres e suas funestas falácias, sem procurar razões injustificáveis para poder pecar e anestesiar a própria consciência. É viver na fraternidade com os primeiros epígonos de Cristo, dos quais diziam os pagãos: “Vejam como eles se amam”!
                                 

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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