Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
parábola dos chamados para cultivar a vinha
(Mt 20,1,16) traz à baila o grande mistério
da salvação oferecida por Deus.
A advertência de Cristo, mostrando que “os
últimos serão os primeiros, e os
primeiros serão os últimos, se liga
a sua outra admonição: “Porque
muitos são os chamados, e poucos os escolhidos"
(Mt 22,14). A convocação feita por
Deus se insere nos planos insondáveis de
sua onisciência infinita. Nas veredas da
história de cada um impressionante o que
se deu com Dimas, o bom ladrão, canonizado
por Jesus em pleno Calvário.
Este bandido, ao contrário de muitos, não
presenciara os prodígios estupendos que
Cristo fizera. Contudo, os agraciados ausentaram-se,
os amigos esconderam-se, as autoridades religiosas
injuriavam, soldados romanos martirizavam, Cristo
é condenado e desprezado e, no entanto,
um grande pecador O reconhece como Rei poderoso!
Enigmático é sempre o apelo de Jesus
a cada ser pensante. Poderosa a influência
da graça no coração arrependido.
Conversão admirável a de Dimas,
o qual aceitou, contrito, o castigo em reparação
de seus crimes e disse a Gestas: “Estamos
pagando por nossos atos”. Fez, em seguida,
uma profissão de fé, pois acreditou
na soberania do divino crucificado.
Tornou-se um missionário do bem, pois tentou
converter o colega de desdita (Lc 23,40). Nas
encruzilhadas da vida, Cristo continua atraindo
a todos. Entre as verdades teológicas e
filosóficas, porém, uma das mais
complexas é a conciliação
da liberdade humana com a onipotência e
a .onisciência divinas. O tratado da graça
é um dos mais difíceis de toda a
Teologia. Regulando nossos destinos por um sistema
de sabedoria que ultrapassa a capacidade cognoscitiva
da inteligência, o Criador assiste o desenrolar
dos atos humanos e só Ele sabe até
que ponto pode chegar a dureza de cada um ao fechar
os ouvidos a seus apelos e, apenas Ele, pode medir
o valor da adesão e do tempo de fidelidade
à graça.
Nas agras regiões da vida, ainda que perdido
no mais profundo abismo de seus erros, sempre
que alguém se voltar para Cristo não
se arrependerá, pois ele saberá
retribuir muito acima do que qualquer um pode
imaginar. Cumpre, porém, aos cristãos
estar alertas porque, os que contemplam os prodígios
da misericórdia divina e se acham imersos
nos favores celestes, não podem facilitar,
dado que Cristo foi muito claro: “Vigiai,
portanto, pois não sabeis o dia nem a hora”
(Mt 25,13).
Recusar ir para a vinha do Senhor ou desconfiar
de sua bondade infinita ou se julgar superior
aos outros é um erro fatal. O ser racional
é livre para aceitar a Jesus ou recusá-lo.
A palavra de Deus na Bíblia esclarece,
os sinais feitos por Cristo provam sua divindade.
Entretanto, nem a poderosa palavra divina, nem
os milagres feitos pelo Redentor podem tolher
a liberdade humana. Deus quer uma adesão
pessoal, consciente de cada um. É por isto
que é tão beatificante a entrega
a Ele pela fé e aí está o
valor da virtude, pois é um ser dotado
de razão que se volta para o seu Senhor.
Aí a fonte de todo o mérito.
Há, porém, um grande obstáculo
ao poder da graça, por assim dizer maior
do que a palavra do Todo-Poderoso e do que tudo
que está nas Escrituras, que é o
endurecimento do coração. Bem-aventurados,
entretanto, aqueles que se deixam iluminar pelas
inspirações celestes e se imergem
na beleza das mensagens de Jesus, na grandiosidade
de seus prodígios, jamais recriminando
os desígnios sapientíssimos do Ser
Supremo, murmurando contra Ele. Outra grande lição
que Cristo oferece na parábola dos convidados
para a vinha é, além disto, que,
se é verdade que na eternidade cada um
receberá de acordo com seus méritos.
Jesus, de fato, afirmou: "Na casa de meu
Pai há muitas moradas"(Jo 14,2). Todos,
portanto, que lá chegarem, terão,
essencialmente, a mesma felicidade, embora aqueles
chamados primeiro ou que por mais tempo foram
fiéis a Deus venham a usufruir de uma porção
ainda maior da mesma beatitude partilhada por
todos. Estas verdades merecem profunda reflexão.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
<- Volta a página principal ->
|