Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Repetida
tantas vezes, pelo vigor mesmo dos termos, se
deixa de penetrar fundo nas lições
da sentença de Cristo: "Dai, pois,
a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21).
Os vários aspectos da justiça foram
expostos, com rara pertinência por Aristóteles
e, depois, por Tomás de Aquino. Antes de
tudo, a justiça comutativa que preside
as trocas entre particulares conforme a igualdade
ou o justo valor do que é permutado, excluindo
o estelionato, a fraude, o dolo, a calúnia,
erros que requerem sempre a restituição.
No início de outubro houve eleições
para Prefeitos e Vereadores e, depois, em 2010,
virão as disputas para outros cargos, inclusive
de Presidente da República e quem é
revestido de tal autoridade deve estar cônscio
da justiça distributiva, administrando
e repartindo equitativamente entre os diversos
membros da sociedade os bens que a todos pertence,
abrindo postos de trabalho, sabendo passar os
cargos a pessoas competentes através de
concursos públicos, não malbaratando
os impostos e aplicando as penas aos infratores
com todo rigor, mas dentro das normas jurídicas.
É o clamor que se encontra no Livro da
Sabedoria: "Amai a justiça, vós
que governais a terra" (Sb 1,1). Adite-se
a justiça legal ou social, cujo foco é
o bem comum da sociedade. Leis justas pelas quais
também os cidadãos devem lutar,
observando as normas que visam a ordem pública.
Tudo isto precisa emanar da reta intenção
dos legisladores para os quais a equidade é
indispensável, componente vital da justiça.
Aqueles que aplicam a legislação
necessitam de muita sabedoria e enorme bom senso
para que não firam jamais a caridade que,
em si, é superior à própria
justiça.
Dar a César o que é de César
inclui, como está claro na resposta de
Cristo a seus indagadores, também pagar
os impostos devidos, oferecendo meios aos governantes
para edificarem a cidade dos homens. Entretanto,
além da justiça entre os homens,
cumpre a justiça para com Deus, a qual
encontra sua fonte num coração espiritualizado.
Tal justiça inclui a religião, ajudada
pelo dom da piedade, rendendo ao Ser Supremo o
culto que lhe é devido; a penitência
que repara os pecados; o respeito e a obediência
aos pais e superiores que são os representantes
de Deus; a gratidão ao Criador por tudo
que se tem dele recebido a cada instante; o temor
sadio para evitar aquilo que desagrada ao Todo-Poderoso
Senhor num clima de vigilância contínua;
a veracidade nas palavras e nos atos de cada instante.
Isto implica uma ruptura, uma renúncia
ao medo, às angústias, aos vãos
temores, dado que é uma injustiça
para com Deus duvidar de sua bondade, de sua misericórdia.
Trata-se de uma abertura para com o Bem Infinito
em cuja mística cada um deve se envolver
para poder sempre louvar o Benfeitor divino. Deus
tem direito de governar a vida de cada um e é
preciso jamais infringir os seus mandamentos.
Disto resulta uma justiça espiritual para
consigo mesmo, pois se chega à liberdade
verdadeira. Afirmou São Paulo: "O
Reino de Deus é justiça, paz e gozo
no Espírito Santo" (Rm 14,17). Santo
Tomás aprofundou este tema da liberdade
espiritual no exercício do dom tão
sublime da justiça para com Deus do que
resulta a liberdade real, fruto da ação
e da retribuição divinas. A intenção
de servir a Deus em tudo e acima de tudo, sendo
deste modo, um ato de justiça, redunda
na iluminação do coração
e da inteligência, gerando a certeza da
plena realização humana em função
do Ser divino.
É o que se chama de fidelidade Àquele
do qual dimanam todos os bens. Esta interiorização
da justiça é o maior tesouro que
uma criatura pode possuir nesta terra. Então,
sim, o cristão passa sentir a necessidade
de fazer Deus conhecido e amado e se entrega à
obra missionária no lugar onde se encontra
e ajuda os heróis do Evangelho espalhados
pelo mundo com preces, sacrifícios e esmolas
generosas para a Obra das Missões.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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