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A PARÁBOLA DO SEMEADOR


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    Quando se reflete sobre a parábola do semeador (Mt 13, 1-23) , se conclui que, lá no íntimo de cada coração, Deus lança sempre a semente divina, que pode operar maravilhas. Ela atinge o íntimo do cristão por vias as mais diversas. É, porém, exigente e supõe a correspondência de cada um.
    Lemos em Isaías: “E assim como desce do céu a chuva e a neve, e não voltam mais para lá, mas embebem a terra, e fecundam-na e fazem-na germinar, a fim de que dê semente ao que semeia, e pão ao que come; assim será minha palavra, que sair de minha boca; não tornará para mim vazia, mas fará tudo o que eu quero, e produzirá os efeitos para os quais a enviei” (Is 55,10-11).
    Por isto mostrou Cristo que o coração humano não pode ser como um caminho por onde transitam livremente as paixões que obstam frutifiquem a semente divina. É mister também não seja a alma como a pedra, isto é, endurecida pela soberba. A chuva copiosa das graças e inspirações celestiais em vão caem em tais almas, que não se deixam penetrar pelo rócio vivificador do alto. É preciso, ainda, no quadro traçado pelo Redentor que não haja espinheiros, a saber, o apego imoderado e desordenado ao que é passageiro e efêmero. Isto abafa e mata o desabrochar do verbo deífico. Felizes, porém, os que são terra boa e produtiva.
    O elogio é do próprio Cristo: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a colocam em prática” (Lc 11, 28). De fato, porque estes produzem fruto cento por um e armazenam para a eternidade merecimentos sem conta. Adite-se que um dos aspectos fulcrais da antropologia é o estudo da palavra, enquanto expressão da pessoa humana que é ontologicamente dialógica, lançando continuamente sementes na mente dos que ouvem ou observam as ações que vêem.
    No falar qualquer um mostra quem é. Desde o tom da voz, indicador de seu perfil caracterológico, até aquilo que é essencial, a saber, o conteúdo, revelador do mundo interior. Cristo com razão declarou: “A boca fala do que lhe transborda do coração" (Mt 12,34). Acrescente-se que o crente não agindo de acordo com a palavra divina, a compromete e se torna culpado das distorções que tal conduta causa.
    Eis por que Paulo instava a Tito para que instruísse a todos no sentido de procederem corretamente, “para que não se diga mal da palavra de Deus” (Tt 2,5). Donde o alerta de São Tiago: “Sede, pois, fazedores da palavra e não ouvintes somente, enganando-vos a vós mesmo” (Tg 1,22). Deus é aquele que cumpre o que promete. Tal é a imagem que do Onipotente nos apresenta a Bíblia. A perfeita coerência dos atos de Javé fulge em cada passo do Antigo Testamento. Ele se revela e age em conseqüência.
    O Novo Testamento é a realização cabal do que Ele declarou nas manifestações vétero-testamentárias. Estas considerações levam à valorização do que se diz. Isto significa o desvelo com o enriquecimento interior, pois vale a palavra o que valer quem a profere. O contato com os ditos de Deus exige adesão irrestrita, sob pena de ficar comprometida a revelação do Criador, que se fez o modelo a ser seguido no que tange à fidelidade à palavra. O que Deus patenteia é norma comportamental e a adesão a ela é condição da felicidade do homem.
    Ao ser racional cumpre uma cautela meticulosa quanto ao que vai falar, pois a palavra vivifica ou mata; é luz ou treva; é vida ou morte. O cristão, sabedor de que as palavras geram formas de comportamento não perde, deste modo, oportunidade alguma para lançar sementes que vão construindo a imperturbabilidade no coração de milhares de corações.
                                 

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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