Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
aclamação, a consagração
são um tributo devido ao mérito.
Repletam-se as páginas da História
de expressivas manifestações a notáveis
personagens que se fizeram credores da gratidão
de sua gente. Beneméritos nas mais variadas
atividades, muitos os que fundiram nos bronzes
do heroísmo ações que os
levaram ao pedestal da glória.
Um plebiscito de corações a ratificar
a grandeza daqueles feitos, credores de efusivos
aplausos. Euforia incontida de multidões
eletrizadas a celebrarem apoteoticamente os vitoriosos.
Hinos, cânticos a louvarem, por entre intenso
júbilo, aqueles que se sacrificaram por
um nobre ideal e glorificaram um povo.
Tudo isto características do dia do triunfo,
do instante da fama, do esplendor da conquista.
Todas as demonstrações de exaltações
até então verificadas se eclipsam
ante a cena indescritível da qual Jerusalém
se tornou palco em manhã radiosa e bela.
O triunfo de Jesus de Nazaré foi o mais
esplendoroso que a terra jamais conheceu.
Os fastos dos povos não registrariam consagração
mais expressiva. Personagem algum, por mais grandiosos
que tenham sido seus feitos e por mais espetaculares
que tenham sido suas conquistas, conseguiria superar
e reeditar o triunfo terreno do Filho de Deus,
devido às circunstâncias que passaremos
a refletir. Apoteótica foi realmente a
entrada messiânica em Jerusalém.
Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Ali estavam
os que se inebriaram com a Verdade que Ele pregara
e que com uma fé profunda lhe arrancaram
sinais prodigiosos de seu poder divino que se
manifestara em curas maravilhosas.
O Filho da viúva de Naim e Lázaro
que ele ressuscitara eram dos mais entusiastas.
Transfigurados de júbilo se faziam presentes
os cegos a quem ele restituíra a vista,
os mudos que fizera falar, os surdos que recuperaram
a audição. Ali os pobres com os
quais se identificara, eles os prediletos do meigo
Rabi.
Os ricos também não se envergonhavam
em aclamar o “Filho do carpinteiro”
(Mt l3,55), pois ele não discriminara os
que possuíam riquezas. As crianças
que ele tomara como modelo a ser imitado e que
sempre a Ele acorriam cantavam e proclamavam seus
louvores àquele que tanto as amava. Ele
havia conquistado os corações e
empolgado as inteligências.
Surge então a grande questão: Como
é que Jesus sendo Deus e, portanto, sabendo
que iria ser crucificado e objeto de escárnio
daquele mesmo povo permitiu aquela consagração?
Ele via por detrás dos braços que
no ar o aplaudiam o fulgurar das espadas e o levantar
de punhos cerrados a clamarem pela sua crucifixão.
Qual a razão pela qual Ele permitiu todo
aquele alvoroço, toda aquela festa? Na
resposta está a grande lição
deste Dia de Ramos. É que Ele queria ensinar
que devemos sempre desconfiar dos aplausos dos
homens.
Ele desejava mostrar qual o verdadeiro valor do
triunfo terreno. Ele almejava alertar seus seguidores
sobre qual a autêntica conquista que deveriam
buscar, oferecia uma verdadeira filosofia de vida
a seus epígonos. Cumpre vencer sempre os
ídolos formados por falsos desejos humanos.
Os triunfos terrenos são ilusórios.
São sombras que passam, névoa que
os lábios da inveja logo dissipam, nuvens
que se desfazem, flor que breve se emurchece.
São passageiros e imediatamente são
olvidados, lançados no esquecimento.
O mesmo sol que os contempla pela manhã
os vê fenecer à tarde. Os homens
são em todos os tempos os mesmos: mudam-se
rapidamente seus sentimentos e hosanas se transformam
em brados de morte, como aconteceu com Jesus.
Eis aí a grande lição do
dia de hoje. Na terra misturam-se o bem com o
mal, o encômio com a injúria, a ventura
com o desar, a alegria com a tristeza, o elogio
com a calúnia.
É para esta inequívoca precariedade
das vitórias, das honras humanas que Cristo
neste dia nos chama a atenção. Ramos
não assinalou sua vitória verdadeira.
Seu triunfo Ele o conheceria em outra manhã
radiosa, no momento de sua ressurreição.
Muitos daqueles que o aclamaram hoje O levarão
ao suplício da cruz. Cumpre então
avaliar na devida conta os louvores.Tenhamos um
conceito preciso dos bens terrenos.
Almejemos não as frágeis e perecíveis
conquistas desta terra, mas sim a felicidade perene
da Jerusalém celeste, onde o Redentor vitorioso
está a nossa espera. Lá, sim, se
encontram os lauréis que não emurchecem
nunca e não são jamais atingidos
pela traça roedora da humana inveja. Este
anelo da apoteose da glória eterna, das
alegrias perenes, nos projetará na posse
de glória imperecível.
Será, então, este o dia do nosso
grande triunfo o qual não terá ocaso,
pois estaremos, sempre, juntos ao Redentor vitorioso.
Para isto é preciso viver nesta terra da
lembrança contínua deste glorioso
Salvador.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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