Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
festa da Assunção de Maria aos céus
leva os fiéís a se lembrarem de
seu destino perene, conforme está na Carta
aos Hebreus: "Não temos aqui cidade
permanente, mas vamos em busca da futura"
(Hb 13,14). Vêm à mente as consoladoras
palavras do Apóstolo: "Tenho para
mim que os sofrimentos da presente vida não
têm proporção alguma com a
glória prometida que nos deve ser manifestada"
(Rm 8,18). A Rainha poderosa, no céu, está
à espera de seus filhos. Por isto o júbilo
é uma marca deste dia singular.
A lembrança de que se longe da pátria
verdadeira, na qual já se encontra Maria,
traz reflexões profundas. Ela precedeu
seu súdito e o destino deste é também
glorioso, se ele andar nos caminhos de santidade
que ela percorreu. A terra ofereceu ao céu
um presente de grande preço, para selar
esta feliz aliança entre o mundo terreno
e o mundo celeste.
Para todos os batizados tem Maria hoje uma mensagem
especial. De seu trono ela contempla as vagas
revoltas do mal arrastando numerosos filhos seus,
sobretudo as ondas sedutoras, mas falazes do prazer.
Porque à alma não podem satisfazer
efêmeras satisfações mundanas,
em todos os tempos, ao lado da coluna dos prazeres
ilícitos, ergueu-se o plinto fatídico
do desespero. À filosofia hedonista sucedeu
sempre a filosofia pessimista. Amarguraram-se
os que cederam ao erro de levar aos lábios
a taça das delícias terrenas. Infelizes
aqueles que não podem sair do abismo em
que se acham, porque a materialidade os tiraniza.
Para este cortejo de almas, que trilham as estradas
da existência sem rumo é que a solenidade
da Assunção traz a mensagem de fagueira
esperança. A melodia que hoje percorre
os ares e penetra no íntimo de cada ser
está repleta de otimismo. Trata-se da inabalável
certeza de que para o cristão verdadeiro,
para o pecador arrependido, aquela ventura eterna
raiará um dia, como refulgiu para Maria.
Diante do mundo está o túmulo vazio
da Rainha que venceu a morte e subiu aos céus,
numa afirmação solene de que a vida
humana nesta terra é um caminhar. As delícias
ilusórias da viagem não podem satisfazer
os legítimos anseios do homem cujo destino
é por demais grandioso.
É o fulgor da vida sobreposto ao horror
da morte que hoje se celebra. Como Maria, cada
um voltará para junto do Pai, depois de
passar pelo vale da morte, se alimentar não
a carne mas o espírito. Tão somente
assim se libertará o ser racional do desespero
que sempre lhe há de advir quando se desilude
das terrenas satisfações. Maria
sobe hoje aos céus porque muito amou. O
epígono de Cristo seguirá a Rainha,
se muito souber amar. Se compreender o verdadeiro
sentido do amor que deve se sobrepor aos desejos
do instinto e se espiritualizar numa diuturna
renúncia. Gloriosa é a vida do homem
sobre a terra rumo a uma ventura sem fim.
Cumpre-lhe, a exemplo de Maria, realizar sua missão,
certo que jamais sonhou com as indescritíveis
alegrias que o aguardam no término da jornada.
Na casa da Madona celeste, na qual ela aguarda
o seu devoto deve estar o pensamento do cristão.
Então, sim, a expectativa da vitória
será para cada filho da Rainha um penhor
do afastamento das ilusões da terra e,
em conseqüência, penhor daquela alegria
que será a partilha de todos aqueles que
ouvem a mensagem da Virgem Assunta aos céus.
Mas para que as ondas do mal não apaguem
o apelo de Maria, cumpre se viva sob a proteção
desta Soberana, trazendo-a cada vez mais para
o cotidiano.
Assim, o fiel não se deixará arrastar
no turbilhão voraz das paixões.
Olhos voltados para a Virgem, caminhe cada um
sem se deixar prender a esta terra de exílio,
porque Maria subiu aos céus para, no entardecer
da jornada, receber seus filhos para os gozos
eternos que Cristo lhes mereceu.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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