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MULTIPLICAR OS TALENTOS


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    Para incentivar os seus seguidores a progredirem sempre espiritualmente, Cristo afiançou: “A todo aquele que tem, dar-se-lhe-á mais ainda” (Lc 19,26). Cumpre, como um bom servidor, fiel aos dons recebidos, multiplicar os talentos que Deus concedeu a cada um,. Através do Espírito Santo a alma do justo possui uma riqueza extraordinária que não pode ficar enterrada pela indolência. O batizado, incorporado a Cristo, se torna um ungido do Espírito. Este é o cerne, o coração, da vida espiritual da qual o Redentor é o princípio.
    O que se esquece muitas vezes é que o cristão vive, ou deve viver, sob a influência contínua das Pessoas Divinas: o Pai que chama À santidade, o Filho de cujas chagas jorram as graças e o Espírito Divino que confere um dinamismo celestial para o desenvolvimento de todo organismo sobrenatural. Neste tem lugar proeminente as virtudes teologais: a fé que relaciona o ser pensante com Deus, a esperança que leva a encontrar nele todo o bem, o amor que se apodera deste bem pela afeição do coração e aspira a gozar de sua presença na perfeita união no céu, mas já iniciada nesta terra.
    É preciso crescer na fé, sempre orando: “Senhor, aumenta-me minha certeza em tudo que revelastes”; dilatar a esperança, pois diz o Livro da Sabedoria: "A esperança do ingrato é como a geleira do inverno, que se derramará como água inútil"(Sb 16,29); alargar o amor a Deus, afastando todo medo, conforme alertou São João: "No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor" (1Jo 4,18).
    Então, sim, sob a inspiração destas virtudes teologais, a prudência passa a governar as virtudes particulares que cumpre sejam cultivadas, a sabaer: a justiça que dá a cada um o que lhe é devido; a fortaleza que impede o desânimo; a temperança, que conduz ao equilíbrio e que domina as paixões e as concupiscências. Quando alguém enterra o tesouro divino, isto não ocorre por culpa do Espírito Santo que se aproxima de cada alma com gemidos inenarráveis, como afiança São Paulo: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza”. (Rm 8,26).
    O Espírito santificador intervém inspirando iniciativas pessoais, vela para que as deficiências humanas sejam superadas, estimula sem cessar na subida dos degraus da perfeição Opera estes efeitos, porém, mas para os que não enterram os tesouros celestiais, ativos em multiplicar esforços singulares, fiéis a seus impulsos. Ninguém é mais importante neste mundo do que o cristão unido a Deus. Como dizia Elisabeth Leseur: “Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”. Nada então fica omitido na marcha para o céu. O batizado vive então na luminosidade da fé, não obstante a obscuridade inerente ao exílio presente. Feliz o que passa a agir em função da lei do progresso espiritual, pois já inicia a degustar neste mundo um pouco das delícias eternas do paraíso.
    A rota dos verdadeiros filhos de Deus é como uma vereda luminosa, caminhada penosa, mas gratificante. O meio mais eficiente para esta marcha ascensional é a repetição dos atos bons que se tornam uma segunda natureza. Deste modo, as empreitadas difíceis se fazem leves e suaves com o decorrer dos anos. O inacessível se faz possível com a graça de Deus. São Paulo lembra bem esta ajuda: “É pela graça divina que eu sou o que eu sou” (1 Cor 15,10). O que não pode acontecer é uma parada neste andar para a eternidade. Correspondência contínua, persistente é o que exige o Espírito Santo que não admite tergiversações, dubiedades, covardia. Cumpre, também, muita humildade, porque Deus não dá seu auxílio aos orgulhosos. Eis por que Jesus dizia ao Apóstolo: "Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força.
    Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo" (2 Cor 12,9). Apenas, deste modo, é possível uma profunda participação na vida divina como mostrou São Pedro: "Temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza de Deus, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo" (2 Pd 1,4). Cada ação se torna então meritória diante do Criador. Os atos mais insignificantes, envoltos no amor divino têm repercussão por toda a eternidade. É uma maravilhosa acumulação de bens. Tudo isto contrabalança as imperfeições humanas e até as faltas veniais.
                                 

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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