Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
veneração da Santa Cruz, dia 14
de setembro, se liga às solenidades da
dedicação da Basílica da
Ressurreição erigida sobre o túmulo
de Cristo no ano de 335. Lá no Calvário
sobre a Cruz o Redentor ofereceu seu sacrifício
para a expiação dos pecados da humanidade.
A Cruz é, deste modo, para o povo cristão
o sinal da esperança do Reino.
A Cruz, objeto de desprezo pelos que maltrataram
e levaram à morte o Senhor da Vida brilha
na História como penhor de eterna salvação.
Se a árvore plantada no paraíso
original produziu para Adão um fruto de
morte, a árvore da cruz trouxe para os
homens o fruto da vida, Cristo e "em nenhum
outro há salvação, porque
debaixo do céu nenhum outro nome foi dado
aos homens, pelo qual devamos ser salvos"
(At 4,12).
São Paulo, porém, lembra que "a
linguagem da cruz é loucura para os que
se perdem, mas, para os que foram salvos, para
nós, é uma força divina"
(1Cor 1,18). Eis por que com o Apóstolo
este é o ideal do cristão que deve
poder sempre repetir: "Quanto a mim, não
pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser
na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual
o mundo está crucificado para mim e eu
para o mundo" (Gl 6,14).
De fato, não basta ter o crucifixo, mas
cumpre ter o Cristo fixo no coração
e na vida. Os que assim não agem "
se portam como inimigos da cruz de Cristo"
(Fl 3,18). Sinal de maldição para
os povos antigos a cruz se tornou, de fato, a
fonte de todas as bênçãos
divinas. Num paradoxo extraordinário a
vida surgiu da morte, a felicidade jorrou da amargura,
a alegria fruiu do sofrimento. É que "de
tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho
único, para que todo o que nele crer não
pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo
3,16).
Foi com o peso de um amor infinito que se deu
a regeneração do gênero humano.
Uma dileção sem limites deu sentido
a um sofrer que se tornou libertação
da escravidão do pecado. Eis por que no
alto da cruz se contempla um coração
traspassado por uma lança cruel, abrindo-se
um livro no qual se lê as mensagens da comiseração
de um Deus clemente. Santo André de Creta,
no século oitavo, escrevia: “Não
há nada mais precioso do que a Cruz de
Jesus que se tornou o troféu da misericórdia
divina. Por ela o diabo foi ferido e vencido,
os grilhões infernais foram quebrados”.
Cumpre, portanto, acolher com fé a libertação
que o Ser Supremo oferece em seu Filho e viver
em conseqüência desta faustosa verdade:
"Trazemos sempre em nosso corpo os traços
da morte de Jesus para que também a vida
de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2
Cor 4,10).
Ninguém se salva pelos próprios
méritos, mas unicamente pelos merecimentos
infinitos da Cruz de Jesus, mas cumpre ao cristão
jamais se esquecer que é preciso corresponder
por uma vida santa a tais méritos do Filho
de Deus. Aos Gálatas foi feita esta advertência:
“As obras da carne são estas: fornicação,
impureza, libertinagem, idolatria, superstição,
inimizades, brigas, ciúmes, ódio,
ambição, discórdias, partidos,
invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes.
Dessas coisas vos previno, como já vos
preveni: os que as praticarem não herdarão
o Reino de Deus! (Gl 5, 19-21) Para estes inútil
se torna a Cruz de Cristo, pois se acham longe
das fontes do Salvador, “no qual estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e da
ciência” (Cl 2,3). Para isto é
necessário a aceitação da
cruz na vida diária com paciência;
reconhecimento, dado que é uma graça
quando alguém sabe por que sofre e lhe
dá um significado sobrenatural; com amor,
porque a cruz é Jesus crucificado que vem
até o cristão para reproduzir nele
seus próprios traços.
Luiz de Chardon ensina que “depois de termos
admirado a violenta e insaciável inclinação
do espírito de Jesus para a Cruz compreenderemos
melhor como Ele a distribui pelas almas que lhe
pertencem pelos vínculos da graça.
Entendemos igualmente porque quanto maior é
a elevação da alma em união
com o espírito de Jesus Crucificado tanto
maior será sua obrigação
quanto ao sofrimento.” É mister,
de fato, que o batizado tenha consciência
de que é membro de uma cabeça coroada
de espinhos e que ele não pode, nem deve
se coroar de rosas perfumadas dos prazeres efêmeros
deste mundo.
Os membros são santificados pela mesma
graça, que está em Jesus como em
sua fonte universal. Eis por que, o cristão
contrai a obrigação de sofrer com
resignação, vivendo intensamente
o verdadeiro significado da Cruz de Cristo. Apenas
assim se dará uma veneração
condigna da Cruz, que é garantia suprema
da glorificação humana.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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