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COMO VENCER SATANÁS


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    O episódio das tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11) ensina como triunfar do Tentador. Este, é óbvio, não poderia jamais incitar interiormente o Filho de Deus a praticar o mal, mas o Redentor permitiu que o demônio dele se aproximasse e apresentasse sugestões malignas extrínsecas para oferecer um exemplo de resistência ao príncipe das trevas e seus asseclas.
      Através da história de cada ser humano surgem, de fato, as solicitações contrárias aos planos divinos. Oferecem elas, porém, ocasião para se demonstrar firmeza na fé, constância na prática dos Mandamentos. Testam a fidelidade do ser racional ao Ser Supremo.
      Cumpre, entretanto, demonstrar em tudo adesão total ao Todo-Poderoso, sem compactuar com as malévolas inspirações de satanás que convida para o pecado. Conta cada um com a graça celestial, conforme declarou São Paulo: “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças” (1 Cor 10,13). Triunfar das tentações é garantir a salvação eterna. Recompensa futura que São Tiago assim descreveu: “Bem-aventurado o homem que suporta com paciência a provação, porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1,12).
      A primeira sugestão feita a Jesus no deserto concerne à alimentação, tentação idêntica ao que aconteceu no paraíso com nossos primeiros pais (Gn 3,3). Logo é repelida por Cristo: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4,4). É preciso vitória sobre a gula, sobre o primado do temporal e do econômico. Quem se escraviza aos bens materiais fica sob a tutela de satã e não pode usufruir as beatíficas riquezas espirituais. A segunda tentação se refere ao desejo de milagres sem motivos plausíveis. Jesus denomina tal atitude como uma ousadia inominável: “Não tentarás ao Senhor, teu Deus”.
      Quantos, hoje em dia, estão a cata de fatos maravilhosos, prodígios surpreendentes, buscando ou prometendo em nome do Senhor Jesus milagres a esmo. Isto contraria profundamente Aquele que merece todo respeito, jamais multiplicando fatos extraordinários para satisfazer a insensatez humana.
      A derradeira tentação diz respeito à vontade do poder, da dominação. Há apenas um Soberano que merece o culto de latria. Eis as palavras de Cristo: "Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Mt 4,10). No contexto atual multiplicam-se os ídolos através dos quais se satisfaz o anseio do demônio de ser adorado, a saber, a exarcebação do sexo, o luxo, o materialismo em todas as suas manifestações. Jesus quer curar o ser racional da fascinação das ilusões, das quimeras, das utopias.
      A seu exemplo cumpre bem empregar a liberdade que é um dom maravilhoso outorgado ao homem, que não deve se deixar enganar pelo espírito do mal. O demônio que o venceu no Eden, quer continuar seus triunfos através dos tempos. Cristo se apresentou como aquele que é verdadeiramente livre e pode libertar os que nele confiam. A liberdade de Jesus que liqüidou as insinuações satânicas tem uma eficácia poderosa para os que se dispõem a seguí-lo numa trajetória luminosa, triunfal. Aliás, segundo Santo Agostinho, em Cristo fomos tentados e nele triunfamos do demônio.
      Este teólogo assim se expressou: “Ele (Jesus) nos representou, em sua pessoa quando quis ser tentado por satanás”. Explica magnificamente: “Em Cristo, tu es que eras tentado, porque Cristo havia tomado de ti a sua carne, para dar-te a sua salvação; de ti a sua morte, para dar-te a sua vida; de ti seus ultrajes, para dar-te sua honra, de ti, portanto, a tentação, para dar-te a sua vitória”. Conclui então do Mestre do Ocidente: “ Se nele nós fomos tentados, nele também triunfamos do demônio”.
      Do mesmo Agostinho se tem a explicação dos motivos pelos quais Deus permite as tentações: “Nossa vida na peregrinação deste mundo não pode estar livre de tentações, pois nosso progresso se realiza através delas e ninguém pode conhecer a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater sem ter inimigo e tentações”. Como vencer o Inimigo, o próprio Jesus nos mostra nesta ocasião: Ele jejuava, se mortificava lá no deserto. Cristo, além disto, estava entregue à oração e, na verdade, bem longe do bulício do mundo. Eis aí as armas o triunfo sobre o Maligno.

                                  

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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