SIGNIFICAÇÃO DO BATISMO DE JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
batismo de João Batista era um batismo de arrependimento,
ou seja, quem o recebia se reconhecia pecador diante de Deus.
Portanto, Cristo não tinha necessidade de se fazer batizar.
Como lembra a Carta aos Hebreus, Ele experimentou todas as nossas
fraquezas, com exceção do pecado (Hb 4,15).
Entretanto, o batismo de Jesus no Jordão foi bem o símbolo
de sua missão neste mundo. Com efeito, ele tomou sobre
si todos os pecados humanos para que, pela sua morte, as faltas
dos que nele cressem fossem remidas e, pela sua ressurreição,
a vida fosse dada a todos os crentes. São Pedro, ilustrou
magnificamente esta realidade: Cristo “carregou os nossos pecados
em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados,
vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos
curados” [Is 53,5] - (1Pd 2,24). Tal a significação
do rito batismal a que o Verbo Encarnado se submeteu.
Há então uma relação profunda entre
este fato e o batismo do cristão, tendo São Paulo
assim se expressado: “Ou ignorais, porventura, que quantos fomos
batizados em Cristo Jesus, fomos imersos à semelhança
de sua morte? Fomos, pois sepultados juntamente com ele, por meio
da imersão, à semelhança da morte, para que
assim como Jesus Cristo ressuscitou dos mortos mediante a gloriosa
potência do Pai, assim caminhemos nós também,
numa nova vida” (Rm 6, 3-4).
O sacramento do batismo é a grande dádiva divina
e faz do ser racional um vocacionado para difundir o Evangelho,
participante que se torna do múnus profético e régio
do Redentor. Recebe o Espírito Santo e se faz também
participante da natureza divina (2 Pd 1,4), destinado a uma glória
eterna. No momento da recepção do batismo outra
maravilha se dá: o cristão se torna o templo vivo
da Trindade Santa (1 Cor 3,16). Adite-se que ocorre, outrossim,
com o batizado a inserção em Cristo: “Porque, assim
como o corpo é um e tem muitos membros, mas todos os membros
do corpo, embora sejam muitos, são contudo um só
corpo; assim também Cristo.
Porque num mesmo Espírito fomos batizados todos nós
para sermos um só corpo” (1 Cor 12,12). Há deste
modo um dinamismo cristiforme que tende à identificação
com o divino modelo, como ocorreu com o Apóstolo: “E vivo
já não eu, mas é Cristo que vive em mim”
(Gl 2,20). Dá-se, realmente, um fenômeno vital. A
água batismal processa uma purificação íntima
de tal forma que se realiza o que o Verbo de Deus asseverou: “Eu
sou a videira e vós sois os ramos” (Jo 15,1). Circula no
cristão a seiva divina. Incorporado a Cristo, está,
implicitamente, também incorporado à Igreja: “Vós
sois o Corpo de Cristo” (1 Cor 12,27).
Se os milhões de discípulos do Redentor espalhados
por toda a terra vivessem em função de sua dignidade
batismal, o mundo seria outro. Repensar a dignidade cristã
é, assim, tarefa urgente em nossos dias. Ao invés
de lamentar a escuridão cada seguidor de Jesus precisa
ser “luz do mundo, sal da terra” como Ele preconizou Então,
uma nova sociedade surgirá. Há um aspecto social
no sacramento do batismo que não pode ser olvidado. A graça
específica por ele concedida é a energia espiritual
para que o batizado seja, inquebrantavelmente, fiel a Deus durante
todos os dias de sua existência terrena. Grande deve ser
a gratidão daquele que possui tamanho tesouro.
Ser um escolhido entre milhões de criaturas racionais para
receber dádiva de tanta valia, exige contínuos atos
gratulatórios ao Todo-Poderoso. Isto supõe, outrossim,
um apostolado sincero e esclarecido para conduzir às águas
regeneradoras os que não conhecem o Redentor. Festejar
o dia do batismo deveria ser uma praxe mais comum por parte do
eleito do Altíssimo.
Esta comemoração, com efeito, sob ser um gesto de
agradecimento, exerce uma função pedagógica
de imensa repercussão pessoal, qual seja a conscientização
da nobreza cristã. Adite-se que para o batizado a fórmula
salvífica não é “Deus e nós”, nem
“nós e Deus”, mas “Deus em nós e nós em Deus”.
Esta, sim exprime a sina venturosa do seguidor de Cristo, unido
de modo especial Àquele “no qual nos movemos, existimos
e somos” (Atos 17,28). A condição de batizado deve
regular toda a vida do discípulo de Cristo em relação
a Deus e ao próximo.
A vida de batizados implica, de si, um abandono total e confiante
ao Espírito Santo que opera a semelhança com Jesus
Cristo. O cristão, autêntico cristóforo, portador
de Cristo, realmente tudo deve ver na ótica do Filho de
Deus e dele cumpre seja sempre o testemunho vivo por toda parte.
Trata-se de se edificar um mundo que, à imagem de Cristo,
esteja direcionado para o louvor e a glória do Pai. Para
isto todo o ser do batizado se transforma na fisionomia reluzente
do Filho de Deus, irradiando neste mundo esperança e paz.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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