Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus
apresentou-se como o Pastor que cuida ternamente
de suas ovelhas, conduzindo-as por entre as tribulações
deste mundo para o lugar de uma eterna felicidade.
Empregou imagens pastoris: redil, ovelhas, porta,
pastor, mas alertou que há também
assaltante. Estes tropos haviam sido empregados
outrossim nos salmos e pelos profetas, sendo o
povo como um rebanho, tendo a Deus como zagal.
Imagem bucólica, simpática, pois
o termo da comparação é ovelha
e não cabrito e Jesus, verdadeiramente,
primava pela delicadeza de suas alegorias. Cumpre,
porém, sempre ir além da metáfora,
por mais afetuosa que seja, para captar a lição,
a mensagem.
Tanto isto é verdade que Cristo se diz
a porta do redil e também o pastor e são
duas funções diferentes que merecem
reflexão. Em primeiro lugar, Ele queria
deixar claro que os cristãos se separariam
do judaísmo e, dissociados do mesmo, formariam
um outro grupo. Haveria, contudo, incursões
dos chefes judeus que tentariam assaltar o seu
rebanho. Foi isto que muitos que o ouviram não
entenderam. Jesus, porém, explica, mas
firma a mesma imagem: “Eu sou a porta”.
Para bem embrenhar-se na mensagem de Cristo é
preciso que se fixe o que é uma porta,
como é feita e para que serve.
Qual a relação então entre
uma porta e Jesus? Seria ele uma porta fechada
com uma chave, como proteção, sempre
trancada? Nada disto. Quem passasse por esta porta
estaria salvo, entraria e sairia sempre encontrando
pastagens verdejantes. A imagem empregada por
Cristo é de um simbolismo muito forte.
Ele não falou em porta de prisões,
mas daquela que está sempre aberta para
o uso de uma liberdade com responsabilidade. As
ovelhas de Jesus entram e saem.
Estão no mundo, mas não são
do mundo, mas em todos os lugares conservam sua
identidade, espiritualmente crescendo em todas
as circunstâncias. Não escutam as
vozes dos mercenários, pois distinguem
bem a voz do Bom Pastor. Tais ovelhas dão
o testemunho de um rebanho, de uma Igreja fiel
que dissemina a Verdade sem desgosto, sem julgamento,
sem medo, jamais, porém, traindo o seu
Pastor.
Esta Igreja não se deixa dominar pelo temor,
não recusa ver a realidade, porque é
um rebanho que não se refugia na ilusão
ou no mito. Eis porque Cristo ressuscitado desejou
tantas vezes a paz a suas ovelhas. Esta paz que
não procede da força como acontece
com a oferecida pelos dominadores, porque paz
que não constrange, nem pressiona. Paz
que permite resistir à covardia e que se
torna a verdadeira liberdade, liberdade dos que
entram e saem pela porta do redil, que é
o próprio Cristo.
A vida do cristão resgatado, ovelha do
Bom Pastor, é uma existência em Cristo
e por Cristo, brotando duma união sacramental
e sobrenatural com Ele e se traduzindo na fé
e no amor. Tudo isto porque Ele é a passagem
para a vida eterna. Ele é o guia da humanidade.
Está acima de todos os arquitetos de idéias,
de todas as ideologias e, fora dele, são
vãs as promessas de felicidade. Em Cristo,
o único mediador, Deus quer a salvação
de todos os homens (1 Tm 2,4-5).
Não há no céu e na terra
outro nome pelo qual possamos ser salvos senão
no nome de Jesus. Nunca, porém, em período
algum da história, como neste início
de milênio, a humanidade teima em se afastar
daquele que é a porta pela qual todos devem
passar para encontrar uma beatitude que, em vão,
é buscada na divinização
do próprio homem e da natureza, insuflado
tudo isto pelas forças sublevadas e organizadas
do mal.
Haverá sempre aqueles que recusarão
o Bom Pastor, preferindo entrar nos palácios
da ilusão pela porta da incredulidade.
Entretanto, aquelas ovelhas que deparam a porta
da autêntica realização encontram
as forças da redenção que
estão em Cristo. Estas são as energias
da vitória, da vida e da eternidade feliz.
Como bem se expressou Karl Adam o homem e Cristo
são como a pergunta e a resposta, como
o desejo e sua realização. Quem
acha em Cristo a resposta à sua pergunta
e a realização de seu desejo, este,
sim, está salvo! Longe dele só desventura.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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