Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
cada ano se celebram os grandes mistérios
da fé para que não caia no esquecimento
um notável acontecimento. A vinda do Espírito
Santo sobre os Apóstolos reunidos no cenáculo
na companhia da Mãe de Jesus é um
destes fatos memoráveis. Jesus mesmo acentuou
a importância da presença da Terceira
Pessoa da Santíssima Trindade que Ele enviaria
após sua subida ao céu, explicando
aos Apóstolos: "Entretanto, digo-vos
a verdade: convém a vós que eu vá!
Porque, se eu não for, o Paráclito
não virá a vós; mas se eu
for, vo-lo enviarei" (Jo 16,7). Ele cumpriu
sua promessa.
Os Apóstolos o receberam solenemente, mas,
depois, todos os seguidores de Cristo também
viveriam sob o influxo do Espírito Santo.
Sua presença e a ação se
faz em todos os sacramentos, mas por excelência
encontra-se no sacramento da Crisma ou Confirmação.
Além disto, como ensina São Paulo,
"Outrossim, o Espírito vem em auxílio
à nossa fraqueza; porque não sabemos
o que devemos pedir, nem orar como convém,
mas o Espírito mesmo intercede por nós
com gemidos inefáveis" (Rm 8,26).
Ele age em cada fiel através dos sete dons
e pelo cultivo de seus frutos: caridade, alegria,
paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade,
brandura, temperança (Gl 5, 22-23).
Além dos dons e de plantar uma árvore
frutífera no íntimo dos fiéis,
o Espírito Santo oferece carismas, dos
quais São Paulo nos fala: "Há
diversidade de carismas, mas o Espírito
é o mesmo; diversidade de ministérios,
mas o Senhor é o mesmo; diversos modos
de ação, mas é o mesmo Deus
que realiza tudo em todos. Cada um recebe o Dom
de manifestar o Espírito para a utilidade
de todos." (1Cor 12,4-7). Os carismas são
como instrumentos.
A graça é dada a todos, mas a cada
um carismas diferentes segundo a missão
específica confiada por Deus. Cumpre empregar
bem os carismas sob pena de ter que se dar contas
ao Ser Supremo pelo bem que se poderia fazer e
que por omissão não é realizado.
O Espírito Santo vem àquele que
O ama, infundindo estas maravilhas, as quais supõem
a correspondência de cada um. O Concílio
Ecumênico Vaticano II patenteia esta excelsa
realidade: “O Espírito habita na
Igreja e nos corações dos fiéis
como em um templo. Neles ora e dá testemunho
da adoção de filhos.
Conduz a Igreja a toda a verdade, unifica-a na
comunhão e nos ministérios, enriquece-a
com variados dons carismáticos e hierárquicos
e a ornamenta com seus frutos”. Disponibilidade
e generosidade são disposições
básicas para a ação divina,
pois, além de consolidarem um comportamento
moral compatível com a vontade do Criador,
dão aquela necessária disposição
interior para seguir as inspirações
celestes.
A presença do Espírito Santo é
atuante e supõe assim adesão que
significa não colocar óbices às
suas operações salutares. Ele quer
dialogar com cada batizado e mister se faz saber
escutá-lo e com ele conversar. Diz o autor
da Imitação de Cristo: “Bem-aventurada
a alma que escuta o Senhor que nela fala”.
Ele é exigente. Como observa Boegner, “jamais
deixa tranqüilo aquele que ele toca...”
De fato, a caminhada pelas veredas da perfeição
é árdua. Cristo, aliás não
deixou dúvidas a este respeito: “Se
alguém quiser vir após mim, negue-se
a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.
Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á:
o que perder a sua alma por amor de mim, achá-la-á”94.
É o Espírito Santo que, através
de sua ação, possibilita esta entrega
amável a uma abnegação sem
limites que supõe fortaleza interior, temor
reverencial de perder Cristo, no qual piedosamente
se contempla o Redentor, cuja companhia é
degustada com sabedoria. O peso da cruz é
visto, através da ciência, como meio
precioso rumo à identificação
com o Mestre.
É o Paráclito que mostra os caminhos
do Filho, aconselhando através de suas
místicas inspirações, quando
há o risco de se apartar dele. O Apóstolo
das Gentes faz esta advertência: “Não
entristeçais o Espírito Santo de
Deus, pelo qual fostes marcados com um selo para
o dia da redenção” (Ef 4,30).
Cumpre estar sempre atento aos recados do Espírito
Santo, deixando que Ele conduza pelos caminhos
da perfeição.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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