Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
episódio envolvendo São Pedro no
mar de Tiberíades mostra como Jesus exige
uma fé firme daquele que nele crê.
Com efeito, diante do vacilo do Apóstolo
que sob o olhar do Mestre caminhava sobre as águas,
mas teve medo, tal foi a advertência que
recebeu: “Homem fraco na fé, porque
duvidastes”! Antes, ele já havia
escutado o que fora dito aos discípulos
que ali estavam: “Coragem! Sou eu. Não
tenhais medo!” Acreditar no poder do Redentor
deve ser como a respiração mesma
da alma do cristão. Isto deve proporcionar
um elã místico que obriga a uma
tranqüilidade absoluta que se irradia, contagiando
todas as atitudes.
Trata-se de uma fé que cria na alma uma
exaltação cantante, a qual gera
imperturbabilidade e uma lucidez, fonte de otimismo.
Cumpre então se despojar sempre da vestimenta
da insegurança que se apossou de Pedro
naquela ocasião. Nada na vida é
fatal e irreversível para quem decuplica
suas energias espirituais. Então nada impede
que se realizem os sonhos de Deus sobre cada um.
Deste modo o cristão dá um sentido
à sua vida, fazendo emergir em si a dimensão
divina.
A fé ilumina os dias do crente. Nem as
cinzas das esperanças perdidas podem apagar
as brasas do amor do Ser Supremo, dileção
que dá sabor celestial em qualquer circunstância
na qual alguém se ache. É que o
batizado sabe que está neste mundo para
uma aventura espiritual tão prodigiosa
quanto inelutável. A sinistrose que se
apoderou de Pedro, que duvidou, se torna uma realidade
para muitos que dramatizam uma série de
insucessos, malogros, desastres, esquecidos de
que com Jesus tudo tem solução.
As invectivas de satã, o pai da desolação,
então não causam seqüelas.
É esta fé no Filho de Deus que leva
cada um a isolar o bacilo do orgulho, o virus
da inveja, o micróbio da impaciência,
o câncer do desânimo, a peste do pessimismo.
É preciso exercitar sempre a arte de conviver
com perspicácia consigo mesmo. Uma alma
sem fé se torna doentia, aberta a todos
os males, aos germes da desilusão. A fé
leva a um estado de espírito na temperatura
divina, capaz de restaurar as forças íntimas
de cada um, fazendo eclodir as qualidades, que
são dons sublimes, mas muitas vezes invisíveis
como o ouro em alguns minerais.
A adesão e anuência pessoal a Deus
levam a curtir ininterruptamente o privilégio
de existir, bem longe de qualquer auto-suficiência.
O coração deixa de ficar vulnerável
às peripécias diárias, não
interpretando de maneira negativa tudo que acontece.
Neste caso, se dá razão a Claudel
ao asseverar que “Cristo não veio
explicar o sofrimento, mas enchê-lo com
sua presença”.
É esta presença inefável
que Pedro não percebeu no momento em que
duvidou, embora Jesus estivesse diante dele e,
na verdade, tendo, pouco antes, feito o milagre
da multiplicação dos pães,
revelando, ainda uma vez, seu poder infinito.
Não há, portanto, para o cristão
a fatalidade do mal e a luta de cada dia se torna
sua grandeza, sua nobreza, sua dignidade. Deus
não dá os frutos, mas sim os grãos
e é a fé que os faz germinar. Esta
virtude teologal leva a ver que a qualidade de
uma vida serena vale mais do que a própria
vida.
Estas reflexões são tanto mais necessárias
quando se percebe que é necessário
estar imune da agitação moderna
que conduz inexoravelmente a todo tipo de frustração.
Uma fé inabalável em Cristo oferece
a Ele a permissão de nos dizer o quanto
Ele nos ama e nos quer ver longe de todo temor.
Seu seguidor não é hipersensível,
frustrado, mas todos os seus gestos se tornam
o eco da ternura de Deus, varrendo para longe
a dúvida.
A fé verdadeira é a sentinela do
invisível que inebria, conforta, energiza,
dando paz ao coração, afastando
as projeções mentais estéreis
e massacrantes. Venturoso o que a possuir, pois
atinge o amor do absoluto e o absoluto do amor.
Não se pode ser feliz sem a janela aberta
para a ternura e o poder do Salvador que veio
para resolver todos os problemas humanos. Nunca
se memorizam demais as palavras de Jesus: “Coragem!
Sou eu. Não tenhais medo!”, as quais
não permitem hesitar.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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