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A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    Todos os pormenores são profundamenes instrutivos no episódio da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45). O amigo de Jesus, estava doente. São João Crisóstomo mostrou como, por vezes, alguns acham estranho que pessoas amadas por Deus estejam envoltas em sofrimentos, em doenças e na pobreza. Pondera o referido teólogo que os amigos de Deus não estão isentos da aflição.
    Aliás, está no Livro do Deuteronômio que o Todo-Poderoso assim se dirigiu ao povo de Israel: "Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos" (Dt 8,2).
    As provações que a Providência envia são uma lição e bem asseverou o poeta Musset: “O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre, e ninguém se conhece enquanto não sofreu”. Elas se tornam um apelo ao desprendimento, à superação e à confiança no Ser Supremo que tudo concede a quem nele confia.
    Esta foi a atitude das irmãs de Lázaro. Elas não mandaram falar a Jesus: “Vinde e curai o nosso irmão, vosso amigo”. Nem tão pouco fizeram este pedido: “Dizei uma palavra do lugar em que estais e ele ficará curado”. Uma súplica semelhante feita pelo Centurião a Jesus, foi objeto de louvor por parte deste Médico divino. Marta e Maria, porém, se contentam com este recado: “Aquele que vós amais está doente”. Segundo Santo Agostinho, deve ter passado na mente delas que bastaria Jesus tomar conhecimento do que estava ocorrendo, porque elas tinham certeza de que Ele não abandona os que Ele ama.
    São Bernardo elogiou este modo de falar de Marta e Maria, quando, não fazendo elas nenhum pedido explícito, manifestaram sua fé e demonstraram a homenagem de sua total confiança em Cristo. Elas se limitaram a abrir a porta de Seu poder e Lhe ofereceram uma ocasião para exercer sua bondade sem limites. Há ocasiões nas quais é melhor esperar com paciência o que o Criador pode dar, evitando detalhar, imprudentemente, o que poderia ser a expressão de uma imposição Àquele que sabe melhor o que convém ao que sofre.
    Lázaro morreria e quem seriam provadas eram suas irmãs que padeceriam com o falecimento do irmão. Marta, contudo, empregou uma notável diplomacia quando Jesus chegou a Betânia, ao Lhe dizer: “Se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido”, ou seja, era a proclamação de sua fé no poderio do grande Taumaturgo. Este, contudo, iria muito além do que Marta poderia esperar.
    Como notável pedagogo, Jesus lança então sua doutrina sublime da vitória sobre a morte: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”! No contexto de suas mensagens muito mais importava a Cristo triunfar sobre a morte do que simplesmente afastar uma doença. Amar para ele não era, então, tirar do leito, mas, sim, da sepultura. Deixou o campo livre à morte para impor à mesma uma formidável derrota. São Pedro Crisólogo asseverou que tudo ocorreu para que todos vissem alí não uma obra de um homem, de um amigo poderoso, mas a realização da força onipotente daquele que venceria, ele mesmo, depois, a própria morte.
    Ele transformaria a tristeza de Marta e Maria no júbilo da saída do irmão de um túmulo. Maria, um dia, iria a um outro sepulcro e o encontraria vazio, porque Jesus ressuscitaria imortal e impassível, confirmando suas palavras a Marta de que era o triunfador da morte e era quem poderia afiançar idêntica vitória a seus seguidores. Fora necessária a morte de Lázaro para que a fé obnubilada dos discípulos também ressuscitasse das trevas com o fato que presenciaram.
    Ele era a Vida e é esta vida que ele comunica ao amigo morto numa prova insofismável do que diria São Paulo: "A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão ?" (1Cor 15,55). O epígono de Jesus não temeria jamais a morte. É de se notar, finalmente, que, antes de ressuscitar a Lázaro, Jesus chorou.
    Segundo Santo Hipólito, Ele permitiu que lágrimas viessem a seus olhos para nos ensinar a compartilhar os sofrimentos alheios, levando aos outros uma verdadeira consolação. Chorou para ordenar sabiamente o nosso amor pelos que sofrem. A ressurreição de Lázaro foi o prenúncio da ressurreição de Jesus e de todos que Lhe são firmemente fiéis.

                                  

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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