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CORREÇÃO FRATERNA


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

    Jesus deixou normas bem nítidas sobre a correção fraterna (Mt 18,15-18). Assinala três etapas: junto do próximo que errou, junto da comunidade e diante da Igreja. Primeiro um diálogo pessoal, visando uma mudança de atitude daquele que se transviou sem agressão e com diplomacia, tato, perspicácia, discernimento. Total sobriedade de palavras e com absoluta sinceridade e retidão de propósito.
    No momento certo com termos corretos. Não produzindo efeito tal medida, se a questão envolve a comunidade é diante de testemunhas da mesma é que a questão deve ser resolvida, ou seja, não se trata de uma implicância pessoal, mas de um fato percebido claramente por outras pessoas. Cristo se refere então a um affaire, a uma decisão que interessa a um determinado grupo. Se nem assim o caso se resolve, cumpre levá-lo à instância superior que é a Igreja, ou seja, à autoridade que rege tal comunidade.
    Se nem a Igreja é escutada, seja tal pessoa considerada diz Jesus “um pagão ou um publicano”, o que não quer dizer que há motivo para desprezo, ou ódio, ou perseguição. O que o Mestre divino quis ensinar é que, feito tudo que humanamente pode ser feito, se entregue nas mãos de Deus a situação daquele irmão. Em síntese, Cristo quis chamar a atenção sobre a necessidade do interesse pelo próximo, pelo bem estar de qualquer grupo social. Na prática, por exemplo, numa casa, antes de tudo e sobretudo, cumpre a conversa amiga.
    Numa comunidade eclesial, troca inicial de idéias com outros elementos da confraria e uma conversa com a pessoa envolvida. Se mesmo assim o problema foi resolvido, cumpre, numa Paróquia, se dirigir ao Pároco, ou, se for o caso ao Bispo. Tudo, porém, com muito critério, reta intenção e anelo de uma correção a bem de cada um e de todo o grupo. Tudo isto, porém, culmina no ponto fundamental que é a prece individual e comunitária, pois, Jesus afiançou: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”, exaltando a oração em comum. Entretanto, também recomendou: "Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á". (Mt 6,6).
    Portanto, a melhor maneira de se converter uma pessoa, tirando-a do mau caminho é orar por ela. Não se mensura demais o valor imenso da prece pelos parentes e amigos, a oração dos pais pelos filhos, destes pelos seus progenitores, do marido para sua esposa e vice-versa. O que se esquece, muitas vezes, é que o tempo de Deus não é o tempo dos homens, mas é certíssimo que tais preces, mais hora menos hora, produzirão o resultado almejado. Aí a fonte das grandes conversões. Portanto, a correção fraterna não é um julgamento, mas um ato de amor, baseado numa atitude humilde.
    Tal o ensinamento de São Paulo: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei" (Rm 13,8) e de São Pedro: "Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade” (1Pd 5,5). Adite-se que Cristo mostra a necessidade de se interessar pelos irmãos. Hoje em dia certas expressões contradizem abertamente esta prescrição. Quantos dizem: “Não estou nem aí, ele ou ela que se rale, que se vire”! Entretanto, a lei do Evangelho é que um procure ajudar, a guiar o outro. Cumpre, porém, a quem é corrigido nunca cair na defensiva, encontrando desculpas e jamais ser incivil e ríspido.
    Jamais se deve usar o bilhete anônimo, próprio dos hipócritas e falsários. Trata-se, de fato, a correção fraterna de um ato de solidariedade praticado com bom senso. É uma manifestação de confiança e de afeto sobrenatural. Deve ser feita como um auxílio espiritual e não como um extravasamento da frustração pessoal. Nem se confunde tal correção com uma mera delação sem fundamento o que seria uma injustiça. Aliás, Jesus preceituou também: "Não julgueis, e não sereis julgados" (Mt 7,1). Examine-se cada um antes de trazer a seu tribunal a atitude alheia e, se corrija primeiro, antes de querer a correção do outro. A prudência deve presidir qualquer correção.
    Por isto, muitas vezes, antes de se dirigir ao outro, é de bom alvitre consultar uma pessoa discreta para que não se venha a magoar o que erra. Se a omissão é condenável, mais indesejável é uma tomada de posição impensada, não ditada pela verdadeira caridade cristã.
                                 

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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