SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
solenidade em honra de todos os Santos é uma das mais antigas.
Foi, porém,o Papa Gregório IV que em 835 quem ordenou
que esta festa fosse celebrada no mundo inteiro. Trata-se de comemorar
a memória de todos aqueles que já se acham no reino
do céu, partilhando a alegria de Deus. Nesta data se coloca
a questão: Que é um santo? No exórdio do
Sermão da Montanha Jesus fez o retrato falado dos eleitos,
dos bem-aventurados ( Mt 5,1-12).
A
fonte desta santidade é Deus, três vezes santo (Is
6,3). É impossível expressar com palavras a santidade
divina que transcende infinitamente todas as criaturas. O ser
pensante pode e deve participar, dentro de suas limitações,
desta perfeição inefável do Criador que ordenou:
"Sede santos, porque eu sou santo" (Lev 11,44). O salmista
oferece também um roteiro admirável para seguir
este preceito divino: "Senhor, quem há de morar em
vosso tabernáculo? Quem habitará em vossa montanha
santa? O que vive na inocência e pratica a justiça,
o que pensa o que é reto no seu coração,
cuja língua não calunia; o que não faz mal
a seu próximo, e não ultraja seu semelhante.
O
que tem por desprezível o malvado, mas sabe honrar os que
temem a Deus; o que não retrata juramento mesmo com dano
seu, não empresta dinheiro com usura, nem recebe presente
para condenar o inocente. Aquele que assim proceder jamais será
abalado" (Sl 14). A santidade consiste, portanto, numa adesão
total às sagradas leis divinas numa atitude inteiramente
voltada para Deus. Para o batizado se trata de uma vida nova em
Cristo animada pelo Espírito Santo. Entretanto, cumpre
se observe que não há santidade sem se passar pelo
Calvário.
O cristão santo tem que se mortificaroração
numa série de esforços perfeitamente positivos e
sob o impulso de ardente amor ao Ser Supremo. Amar é preferir,
ou seja, sacrificar as preferências próprias, para
acatar as propostas do Criador. Amar é o sair de si mesmo
para o outro, isto é, para Deus e para o próximo.
Amar a todos como Jesus os ama, ou seja, com uma dileção
pessoal até o sacrifício. É o sentir o irmão
na fé, dando-lhe espaços, ajudando-o a carregar
o fardo de cada hora.
Tudo isto sob os acordes do belo hino entoado por São Paulo:
"A caridade é paciente, é benigna; a caridade
não é invejosa, não se ufana, não
se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca
os seus próprios interesses, não se irrita, não
suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas alegra-se
com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê e, tudo espera, tudo
suporta" (1 Cor 13,4-7). Os santos que já estão
na pátria celeste realizaram de maneira excelente aquilo
que todo cristão deve sempre praticar, se estiver cônscio
de sua vocação. Para que isto aconteça cumpre
deixar o Espírito Santo agir. Ele confere a toda ação
a qualidade espiritual que leva cada um a progredir sempre nos
caminhos da perfeição.
Assim sendo, as tarefas são serenamente executadas. Ser
santo não é ficar rezando o tempo todo, mas, tendo
cada um reservado momentos para suas preces individuais ou comunitárias,
é transformar os demais atos diários, ainda os mais
absorventes, em oração. A atividade nos múltiplos
afazeres também enriquecem a espiritualidade e faz crescer
na graça santificante.
É mister captar a espiritualidade que está inerente
na própria atividade, mesmo porque em qualquer circunstância
cada um está a serviço do outro. É só
dar uma aplicação transcendental ao que se está
realizando sob o impulso do amor a Deus e ao próximo, dando
qualidade sobrenatural àquilo que se faz. Em outros termos,
é de vital importância a encarnação
da espiritualidade na ação, o que conduz a um crescimento
na santidade existencial. Isto bem dentro da diretriz do Apóstolo:
"Quer comais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa,
fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10,31).
É no cotidiano, nas mais pequeninas atividades que se opera
a santificação pessoal daqueles que acreditam em
Cristo. Eis por que todos os que permanecem fiéis, firmes
na sua fé, arraigados na esperança, perseverantes
na caridade, podem ser considerados como santos. Este deve ser
o ideal de todo cristão, não sendo isto uma honra
reservada apenas a alguns privilegiados.
O importante é estar movido pelo espírito de Jesus
e este espírito não deixa que se esteja longe da
participação da vida de Deus e aí está
já configurada a salvação. Não há
distinção entre ser salvo e ser santo. É
preciso ser santo para ser salvo. Todas estas verdades devem ser
aprofundadas no dia dedicado àqueles que já estão
na Jerusalém celeste, para que não se perca o rumo
da Casa do Pai.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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