PESCADORES DE ALMAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
episódio da pesca milagrosa (Lc 5,1-11) que tanto espanto
causou a Pedro, Tiago e João e seus companheiros oferece
reflexões preciosas sobre a evangelização.
Todos os batizados, por participarem do múnus profético
e régio de Cristo, têm a incumbência de trabalhar
pela difusão do Evangelho sob a orientação
da hierarquia estabelecida pelo Fundador da Igreja. Trata-se de
uma missão essencial para que a obra salvífica de
Cristo se estenda por toda parte. Não obstante os obstáculos
de um contexto materialista, hedonista, marcado pela descrença,
com a força do Espírito Santo o cristão se
torna um apóstolo autêntico, corajoso, eficiente.
A perseverança é essencial, dado que o tempo de
Deus não é idêntico ao cronos humano. Até
a consciência da precariedade dos recursos individuais deve
ser vencida pela confiança total na ação
da graça divina que, mas hora, menos hora, converterá
aquele que se acha nas sombras do erro. Os desequilíbrios
dos que se tornaram ovelhas perdidas do celestial Pastor não
podem ser empecilho para a ação missionária.
O estímulo interior para tal atividade advém da
certeza de que cada batizado é um instrumento de que o
Ser Supremo se serve para levar sua mensagem de amor e misericórdia.
Nunca se deve esquecer o que afirmou São Tiago: “Meus irmãos,
se alguém de vós se desviar da verdade e outro o
reconduzir, saiba que aquele que reconduz um pecador do seu descaminho
salvará a sua alma da morte e estenderá um véu
sobre uma multidão de pecados” (Tg 5,19-20). Pode-se inclusive
dizer: uma alma salvaste, a tua predestinaste. Com efeito, o Criador
não deixará se perder aquele que cuidou da saúde
espiritual do próximo. Cumpre lembrar ainda que todos os
profetas e apóstolos que lutaram pela causa de Deus estavam
possuídos por uma energia superior que os sustentou nas
horas de fraqueza, de dúvida, de desânimo e os tornou
capazes de fazer oposição ao mundo e às artimanhas
malignas do Inimigo.
Cristo muitas vezes não chama os mais capacitados, mas
capacita sempre os que ele chama para serem agentes de salvação
em determinadas circunstâncias para tirar o outro do fundo
do poço de sua miséria espiritual. Que exemplo magnífico
o de Moisés que, sobretudo na travessia do deserto, enfrentou
as mais difíceis provas diante da dureza de coração
dos que devia guiar rumo à libertação completa.
Jeremias sentiu o apelo do Alto penetrar como uma espada na sua
carne e a queimando como o fogo até que ele se entregou
à sua tarefa junto ao povo. Paulo de Tarso, convertido,
deixou o célebre slogan: “Ai de mim se eu não evangelizar”!(1
Cor 9,16) Lutou contra tudo e contra todos e não esmoreceu
nunca e mereceu ser intitulado o Apóstolo das Gentes. Esta
sua vocação passou a fazer parte de todo o seu ser.
Seu zelo se manifestou no que escreveu, no que viveu e em todas
as suas ações. O ser apóstolo era sua maneira
natural de existir. Este deve ser o ideal de todo epígono
do Redentor. Ter o espírito ardorosamente ligado ao interesse
da glória divina. Pescar almas demanda tato, perspicácia,
poder de simpatia, atração pessoal que se irradia
de uma espiritualidade bem cultivada.
O bom pescador sabe que conhecimento do tempo, da água,
do instrumento que deve empregar para que atinja seu objetivo.
É na união com o Espírito Santo que cada
um haure tais dons para salvar os pecadores e os que desconhecem
a verdade. Sinceridade, coerência existencial, humildade
são condições basilares para aproximar-se
do que necessita de ajuda espiritual e, até material.
Neste último item as associações sociais
da Igreja Católica são de um valor imenso, mesmo
porque Jesus era médico do corpo e da alma. No apóstolo
a bondade do coração é imprescindível.
É a partir de uma conversa amiga que se inicia a conversão
como aconteceu com o diálogo de Cristo com Nicodemos e
com a Samaritana. Nem se pode olvidar a importância da prece
ardente, o apostolado da oração. Que todo cristão
se recorde sempre que é belo e necessário ser apóstolo!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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