O MISTÉRIO TRINITÁRIO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
mundo e suas maravilhas mostra-nos que Deus existe. O cosmos apregoa
o poder supremo. Jó expressou-se com rara precisão:
“Com efeito, Deus é grande e ultrapassa toda nossa ciência,
o número de seus anos é incalculável. Ele
detém as gotas da chuva” (Jó 226,36-37). A Moisés,
Javé se revelou como “Aquele que é”. Na plenitude
de seu Ser infinito, a fé nos leva a adorar uma Trindade
de pessoas realmente distintas.
Distinção real, não meramente fenomenal ou
funcional. Como ensina Tertuliano, a monarquia divina permanece
indivisível, mas está distribuída entre o
Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esta diversidade não
impede a soberana unidade da divindade, pois as três pessoas
têm a mesma essência em uma harmonia e identidades
perfeitas. Três Centros de Consciência, três
Modos de existir, três Hipóstases ontologicamente
relacionadas e não apenas em plano meramente dinâmico
e relacional. Tríade divinal que patenteia o Pai, o Filho
e o Espírito Santo eternamente unidos no mesmo nome — Deus,
no idêntico poderio e glória, numa inefável
reciprocidade de conhecimento e afeição profunda.
Mistério sublime: desde toda eternidade o Pai se conhece.
Este pensamento é eterno, substancial, é a imagem
de toda vida divina igual a sua origem.
Eis a segunda pessoa, o Filho, o Verbo eterno. O Pai e o Filho
eternamente se amam. Este amor é essencial, intemporal,
é o Espírito Santo, Terceira Pessoa, que procede
do Pai e do Filho. Bossuet assim se expressou: “Se obrigarmos
ao silêncio os nossos sentidos e nos restringirmos por algum
tempo ao interno recolhimento de nossa alma, lá onde a
verdade mais se resplandece, aí veremos uns longe da imagem
da Trindade que adoramos.
O pensamento, que sentimos nascer como germe de nosso espírito,
como filho de nossa inteligência, alguma idéia nos
dá do Filho de Deus, para que nós saibamos que ele
nasce no seio do Pai, não como os corpos nascem, mas como
nasce em nossa alma esta palavra interior que lá nos fala
quando contemplamos a verdade.
A fecundidade, porém, do nosso espírito não
está somente nessa palavra interior, nesse pensamento intelectivo,
nessa imagem da verdade que se forma em nós. É-nos
prezada não só a palavra interior, mas também
o espírito em que nasce; e, prezando-a em nós sentimos
coisa que não apreciamos menos que o nosso espírito
e pensamento, é o fruto de ambos, que os une, que se une
a eles, e com ele faz uma só vida.
Desta sorte - tanto quanto é possível relacionar
o homem com Deus - se produz em Deus o amor eterno, emanação
do Pai que pensa, e do Filho que é o pensamento do Pai,
para fazer com ele e seu pensamento uma só natureza igualmente
feliz e perfeita”.Santo Tomás dilucida: “... quando se
diz que o Filho é amado pelo Pai, não se afirma
realmente que o Filho receba algo do Pai, mas só que nele
se termina o ato de amor... e quando se diz que o Espírito
Santo é o amor do Filho para com o Pai, não se diz
que o Pai esteja recebendo algo e sim apenas, segundo o modo de
se significar, que nele se termina como no amado, o amor do Filho”.
A Trindade deve ser vislumbrada conforme a analogia de união
comum de pessoas. Nunca o homem, com sua razão, poderia
ter conhecimento desta vida íntima do Criador: três
divinos “Eu” consubstanciais. A comunicação mútua
intra Trindade Santíssima só se chega via revelação.
Schmauss observa com razão: “O fato de que as representações
trinitárias, onde quer que se encontrem fora da Bíblia,
serem politeístas, constitui um forte indício de
que o acesso a doutrina cristã da Trindade está
fechado ao pensamento puramente humano”. As palavras e os testemunhos
de Cristo ancoram a magna manifestação deifica.
Sem Cristo, o logos visível, nunca o intelecto criado atingiria
a tripersonalidade do Onipotente. Várias as passagens do
Evangelho sumamente expressivas sobre este ponto basilar da fé.
Cumpre ao cristão viver em função deste mistério
sublime, pois fomos criados do Pai, remidos pelo Filho e caminhamos
sob as luzes do Espírito Santo para a contemplação
da Trindade Santa por toda a eternidade numa beatitude sem limites.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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