A HUMILDADE CRISTÃ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Notável
a insistência de Cristo no que tange à virtude da
humildade. Deixou claro: “Porque quem se eleva será humilhado
e quem se humilha será elevado” (Lc14,11). Cumpre sempre
refletir sobre o que não é a humildade e qual seja
a essência desta necessária atitude moral. Com efeito,
uma das atitudes humanas mais belas e dignificantes é tantas
vezes mal interpretada. Esta virtude é confundida freqüentemente,
com o abatimento, a pusilanimidade, a fraqueza e deste desacerto
resulta um menoscabo para uma atitude ética basilar.
A concepção citada é falha, pois contradiz
o termo virtus que significa energia, vigor. Destemidos foram
os mártires cristãos dos primeiros séculos
do cristianismo e, no entanto, ninguém mais humilde do
que eles. Cristo, Filho de Deus Onipotente, que foi corajosamente
ao Gólgota e suportou heroicamente a maior cópia
de dores físicas e morais, jamais registradas na História,
pôde proclamar: “Aprendei de mim que sou manso e humilde
de Coração” ( Mt 11,29) A humildade na feliz expressão
de Santa Tereza é a verdade. A verdade sobre Deus do qual
ontologicamente dependem todos os seres do universo que são
contingentes, limitados.
O orgulhoso é aquele que atribui a si mesmo o que lhe vem
do Altíssimo não lhe rendendo a honra e a glória
devidas. O orgulho impede qualquer ato de agradecimento e a prece
confiante, uma vez que o presunçoso não necessita
de ninguém. Seu desdém se estende a tudo e a todos.
A empáfia pode se tornar tão grande que o altivo
chama a divindade ao seu tribunal, questionando o próprio
Criador. A embofia pode até chegar às raias do desafio
ao Senhor do Cosmos, que, por ser Eterno e Misericordioso, tolera
pedagogicamente o soberbo. Bossuet afirmou: “O orgulho é
uma depravação mais profunda: por ele o homem, entregue
a si mesmo, considera-se como seu próprio Deus, pelo excesso
do seu amor próprio”.
O orgulhoso, porém, mais hora menos hora, vê-se vítima
de seu desatino. O humilde reconhece sua dependência metafísica
do Ser Supremo e a Ele se submete, rendendo-lhe suas sinceras
homenagens. Vive na órbita do Todo-Poderoso a quem reserva
o melhor de seu coração. Compreende-se, então,
a declaração de Cristo: “Quem se humilha, será
exaltado” (Mt 23,12) e o que asseverou São Tiago: “Deus
resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes”
( Tg 4,6), É a verdade sobre si mesmo. Se tudo vem de Deus
e é um dom de sua munificência, o humilde sabe e
reconhece que nada tem e tudo recebe daquele que o criou. Daí
a argüição de São Paulo: “Que tens tu
que não recebestes? E se o recebeste, porque te glorias,
como se não tiveras recebido?” (1 Cor 4,7) A Virgem Maria
tinha consciência de sua total subordinação
ao Criador. Assim, ante as maravilhas por Ele nela operadas, declarou:
“Ele olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1 ,48).
É
dentro desta perspectiva que Cristo prescreveu aos apóstolos:
“Depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: Somos
servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc
17,10). A humildade é a verdade no que tange aos outros.
Eis aí uma dedução lógica das reflexões
precedentes.. É próprio dos orgulhosos julgar os
outros, considerando-se superior a todos. Sábia a instrução
de Jesus, dizendo que quem é convidado para uma festa não
ocupe, orgulhosamente, o primeiro lugar (Lc 14,8).
Por isto, injusto quem é com Deus, furtando-lhe a glória;
injusto consigo, aumentando indebitamente seus méritos;
o é também com o próximo no qual não
vê nenhuma prenda, mas apenas defeitos, muitos dos quais
criação de sua mente doentia. Ele se esquece que
transferimos para os outros nossas próprias deficiências
e falhas.
Para se adquirir a humildade cumpre seguir o conselho de São
Bernardo, meditando com sinceridade estas questões: “Que
fostes? Que és? Que será?” Do mesmo santo esta norma:
“Desprezar o mundo desprezar a ninguém, desprezar a si
próprio, desprezar ser desprezado dos outros “Enquanto
homem, Cristo se dedicava inteiramente a honrar o Pai. Santo Tomás
no hino Adore te lembra a atitude humilde do Salvador no Sacrário:
“Na cruz estava escondida só a divindade; aqui está
oculta ao mesmo tempo a humanidade”. Ele se fez modelo de humildade.
Nunca se deve esquecer que atos de gratidão e as preces
são manifestações de um espírito humilde.
É que este tudo refere a Deus e permite então ao
Senhor operar nele maravilhas não se julgando superior
aos outros e reconhecendo os próprios defeitos.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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