DOMINGO DE RAMOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
Grande Semana começa, levando todos à meditação
dos mistérios da Paixão e Morte de Cristo, mas tem
um final jubiloso que é a vitória do Redentor sobre
a morte. Foi em torno da Semana Santa que nasceu todo o ano litúrgico
e, historicamente, é o núcleo inicial. Os cânticos,
as preces e os símbolos revelam nos diversos dias todo
esplendor de uma teologia profunda por entre o mais vivo dramatismo.
O Domingo de Ramos é o pórtico monumental mesclando
brados de hosanas com os clamores da Paixão de Cristo.
A solene comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém
leva os cristãos a se unirem a seu Redentor para o acompanhar,
depois, na via dolorosa. Os ramos significam o triunfo: “Hosana
ao Filho de Davi: bendito seja o que vem em nome do Senhor, o
Rei de Israel; hosana nas alturas”. Representam também
a situação do batizado que é um defensor
da fé. Estão a dizer a cada um: “Recorda-te que
és soldado de Cristo, que estás unido a Ele e que
caminhas com Ele para o Calvário e para a Ressurreição”.
A procissão de Ramos é bem o símbolo da peregrinação
sobre a terra: a humanidade a caminho da beatitude eterna. Por
isto: “Glória, honra e louvor a Ti, Cristo, Rei Salvador,
a quem a multidão cantou hosanas piedosos”. A Missa apresenta
a narrativa de São Lucas sobre o princípio da paixão,
Jesus perante Pilatos, diante de Herodes, sua condenação,
a caminho do Gólgota, no madeiro da cruz, seu diálogo
com o bom ladrão, sua morte e sepultura (Lc 22,14- 23,56);
É que a entrada solene de Jesus em Jerusalém foi
um prelúdio de suas seqüentes dolorosas humilhações.
Aquela multidão que o homenageou foi movida pela lembrança
de inúmeros benefícios que o Rabi da Galiléia
havia feito a tantos, como a cura dos doentes, a ressurreição
de Lázaro, a multiplicação dos pães.
Muitos, posteriormente, se esqueceriam de tudo e clamariam pela
sua morte! Aquele foi um momento fulgurante, uma explosão
de júbilo, mas instante fugitivo, porque humano.
Jesus que conhecia o coração dos homens não
estava iludido. Não recusou, entretanto, o aplauso popular
e quis participar do regozijo do povo para alertar a todos que
os louvores são transitórios e, muitas vezes, repletos
de falsidade. Quanta ambigüidade nas atitudes de certas pessoas!
Deus, porém, quer de cada um aquilo que deve ser definitivo:
o amor de um coração sincero!.Cumpre, como aconteceu
com Cristo saber lidar dom a aleivosia, cujas dimensões
apresentam matizes variados. Bem diz o provérbio que convém
confiar, desconfiando sempre.
Aquele que hoje elogia, amanhã pode estar insultando. Quantos
cristãos , perante os vícios que campeiam no mundo,
não têm coragem suficiente para denunciar o erro
veiculado nos meios de comunicação social e, quem
sabe, até interiormente, ficam de acordo com os maiores
absurdos morais que são divulgados, num desprezo acintoso
da Lei divina. É a falta de lealdade para com o Evangelho.
São os discípulos de Cristo facilmente sugestionáveis
que aceitam as opiniões dos outros e as mensagens deletérias
que a mídia difunde.
É a total falta de autenticidade. Esta exige um viver e
um comportar-se patenteando, em tudo e em toda parte, no comportamento
e nas palavras, a plenitude dos ensinamentos de Jesus. Autêntico
é o batizado fiel ao Redentor. Epígono que se comporta
de acordo com a transcendência de seu ser renovado no sangue
divino que o redimiu.Verdadeiro é o cristão que
tem coragem de se transformar e de se superar, melhorando sempre.
A verdadeira religião não se coaduna com uma postura
e um agir que passa continuamente dos louvores entusiásticos
ao desprezo da doutrina do Mestre divino. Tais são as lições
do Domingo de Ramos que apela para a têmpera, o esforço
coerente de quem vive o mistério dos sofrimentos de seu
Redentor.
É digno de louvor o batizado que, querendo viver o ideal
da perfeição evangélica, de acordo com os
desígnios de Deus, em conformidade com as suas inspirações
mais profundas, procura se aprofundar no conhecimento das verdades
reveladas, ciente daquilo que o Ser Supremo espera dele. Esse
vive de conformidade com o seu destino, com a sua natureza; esse
é um cristão leal, fiel a seu Senhor.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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