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A TRANSFIGURAÇÃO E SUAS MENSAGENS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
O episódio da Transfiguração de Jesus (Lc 9, 28-36) confirma vários artigos da fé cristã. Com efeito, a Trindade aparece na intervenção de cada uma das Pessoas divinas. O Pai dá seu testemunho sobre seu Filho escolhido que deve ser ouvido e o Espírito Santo cobre aquela cena admirável sob a forma de uma nuvem resplandecente. Fulge o mistério da Encarnação, pois Jesus aparece ao mesmo tempo como Homem e como Deus, verdadeiro Filho de Deus. Além disto, Cristo transfigurado era já um sinal de sua Ressurreição e de todos os justos que participarão perenemente das alegrias do céu.
      A Transfiguração de Jesus foi, de fato, a manifestação da sua glória eterna em uma humanidade que Ele assumira para reparar, através de sofrimentos incalculáveis, o pecado dos homens. Trata-se, realmente, de uma antecipação da condição gloriosa do Ressuscitado a qual seria obtida pelo sangue da cruz. Vitória espetacular sobre a morte da qual haveriam de participar os que nele cressem. Tudo isto convida então a uma nova visão que leve a contemplar a beleza de Deus, não obstante as múltiplas desfigurações de um mundo ferido que deve ser transfigurado por Jesus.
      Nesta montanha sagrada está o mundo de Deus e o mundo dos homens, pois a humanidade de Jesus de reveste de fulgente luz. Aí, explicação magnífica da vocação humana que consiste em viver de Deus e em vivendo de Deus é que o ser pensante se torna verdadeiramente humano, deixando de agir irracionalmente. Humanidade e divindade não se excluem, mas se complementam.
      É o que está expresso na belíssima prece no momento em que o sacerdote mistura uma gota de água no vinho que será transubstanciado no sangue do Redentor: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade daquele que se dignou assumir nossa humanidade”. É notável que os mesmos discípulos que participam da transfiguração de Cristo sejam os mesmos que presenciariam sua agonia no Getsêmani.
      É em função da Cruz que o Salvador manifesta a sua Glória. Ele deveria caminhar para Jerusalém, mas antes penetrando de fé o coração dos três Apóstolos, escolhidos para testemunharem momentos tão sublimes da obra salvífica. Aquele instante da eternidade ali no Tabor seria passageiro e não tinha razão de ser o projeto de São Pedro de construir tendas ali. Pedro, Tiago e João ficaram tomados de medo, temor que seria acentuado muito mais nos acontecimentos da paixão do Senhor.
      Todo receio seria dissipado apenas após a Páscoa que transfiguraria definitivamente o coração deles a ponto de Pedro, que chegaria a negar o Mestre no Pretório, enfrentar depois os inimigos de Jesus afirmando corajosamente perante o Sinédrio: “Nós não podemos deixar de falar daquilo que vimos e ouvimos” (Atos 4,20). Apenas depois da Paixão de Cristo é que os apóstolos compreenderiam que a transfiguração plena de Jesus e de seus epígonos se daria após o Calvário.
      É pelos sofrimentos aceitos em união com o Crucificado que age o amor do Pai que transfigura os espaços na vida humana desfigurada pelo pecado. Grandes indagações se colocam então para o cristão: De que modo, de fato, transfigurar o seu olhar e seu coração? O que impede que se escute plenamente Jesus, como o Pai ordenou? Até que ponto o batizado está ciente e consciente de que ele se tornará mais humano, ou seja, menos irracional, quanto mais ele se transfigurar na imagem do Mestre divino.
      Quando cada fiel poderá, na verdade, repetir com São Paulo: “Já não sou eu que vive, mas é Cristo que vive em mim”? (Gl 2,20). Cumpre trazer para o cotidiano o que a belíssima canção do Pe. Zezinho ensina: “Amar como Jesus amava, sonhar como Jesus sonhava, pensar como Jesus pensava, viver como Jesus vivia”. Então, sim, é sinal de que o mistério da Transfiguração ficou inteiramente compreendido e se transformou num impulso vital rumo à própria espiritualização.

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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