A BÍBLIA SAGRADA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quando
alguém se dispõe a ler um livro, a primeira atitude
racional é se inteirar sobre o assunto em pauta, os objetivos
e o valor cultural de seu autor. O tema abordado direciona o escritor,
os fins dimensionam métodos e a capacidade intelectual
de quem escreve é decisiva para que o conteúdo seja
tratado com propriedade. Uma mesma matéria pode ser ventilada
sob formas variadas, dependendo do canal de transmissão
selecionado pelo comunicador.
Assim,
são diversos os elementos a serem observados para uma análise
textual. Ora, se isto se aplica a qualquer obra com mais razão
ainda à Bíblia. Com efeito os livros que compõem
a Escritura Sagrada foram elaborados em várias épocas,
por pessoas diferentes. Sua leitura requer o mínimo de
informações preliminares.
Para
os que aceitam a revelação, seu autor principal
é Deus que se manifesta aos homens. Cumpre observar que
“este plano de revelação se concretiza através
de acontecimentos e palavras intimamente conexas entre si, de
modo que as obras realizadas por Deus na História da Salvação
ostentam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas
pelas palavras”.
A
verdade divina chega por intermédio do homem e os muitos
meios de comunicação de uma mensagem são
utilizados. Há partes históricas, proféticas,
didáticas. É o recado do Onipotente que deve ser
captado, meditado, aprofundado e vivido por aquele que tem fé.
Por vezes, o hagiógrafo se expressa de forma simples, natural
ou metafórica. Quem não vai além do recurso
semântico ou da linguagem literária não pode
pinçar o discurso do Criador.
É,
então, levado, ingenuamente, a comparar certos excertos
bíblicos com a história da carochinha. É
o que acontece com quem não tem fé. Outros , sem
crença alguma, podem até se maravilhar com páginas
encantadoras deste livro maravilhoso, mas sem tirar proveito espiritual.
Donoso Cortês tem uma belíssima página sobre
a Bíblia e nela estes dizeres: “Livro prodigioso aquele
no qual o gênero humano começou a ler, faz trinta
e três séculos e, lendo nele todos os dias e todas
as horas, ainda não acabou sua leitura.
Livro
prodigioso aquele que vê tudo e sabe tudo; que sabe os pensamentos
que se levantam no coração do homem, e os que estão
presentes na mente de Deus; que vê o que se passa nos abismos
da terra; que conta ou prediz todas as catástrofes dos
povos, todos os tesouros da justiça e todos os tesouros
da vingança e onde se encerram e entesouram todas as maravilhas
da misericórdia. Livro enfim, que quando a terra desmaiar
e o sol recolher sua luz e as estrelas apagarem-se permanecerá
ele apenas com Deus, porque é eterna sua palavra, ressoando
eternamente nas alturas”. Este é, de fato, um texto peculiar.
Tudo
que se pode querer perscrutar sobre Deus e a criatura, nele se
encontra. Eis porque nenhuma outra produção escrita
é mais lida através dos tempos. É preciso,
porém penetrá-la com o coração aberto
e receptivo . O autor da Imitação de Cristo dá
esta diretriz : “Se quereis tirar fruto (da Escritura), leia com
humildade, simplicidade e fé”. Quem sente embaraço
ante certas passagens do Antigo Testamento é porque quer
enquadrar Deus nos seus moldes mesquinhos e não se dispõe
a descobrir as insondáveis riquezas de um texto que tem
ressonâncias divinas.
A
temática apresentada pela Bíblia oferece, quer aos
doutos, artistas, cientistas, quer às pessoas humildes
e sem grandes conhecimentos, um manancial imenso para as mais
extraordinárias elucubrações. A generosidade
de Deus, a miséria do homem, o mistério do sofrimento,
a vitória dos bons, a real condição dos prevaricadores,
a esperança dos justos estão aí compendiados
magistralmente. Nas páginas sacras sempre uma resposta
a todas as indagações do ser que raciocina. Livro
humano que patenteia os maiores heróis com seus altos e
baixos, suas glórias e suas fraquezas.
O
que era, o que é, o que virá é descrito com
sabedoria. Retém a fala do Criador que atravessa os séculos
e permanece por toda a eternidade. Valiosa a norma da Dei Verbum
: “Para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados,
deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo
e à unidade de toda a Escritura, levadas em conta a Tradição
viva da Igreja e a analogia da fé”.
É
que os diversos autores escolhidos pelo Espírito Santo
foram inspirados. Isto quer dizer que “na redação
dos livros sagrados Deus fez a escolha de homens dos quais se
serviu fazendo-os usar próprias faculdades e capacidades,
a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem
como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio
quisesse”.
Donde
se conclui que não há erro na Bíblia. Ela
é a carta escrita pelo Pai a seus filhos aqui na terra.
Felizes os que a compreendem e vivem em plenitude os seus sábios
ensinamentos!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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