A HUMILDADE CRISTÃ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Toda
virtude é uma conquista necessária através
de um exercício amplo decorrente da liberdade de cada um.
Traz consigo sempre felicidade e crescimento espiritual. Entre
elas a fundamental qualidade cristã que é a humildade.
Seu efeito maravilhoso foi proclamado por Cristo :"Porque
todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele
que se humilhar será exaltado" (Lc 14,11). Nesta sentença
está a condenação da soberba, mãe
de todos os vícios.
Para
compreender a humildade e apreciar seu imenso valor é preciso
que o cristão se situe como criatura diante do Criador.
Consciência de sua dependência ontológica de
Deus, Ser Necessário, sendo todos os demais seres contingentes,
pois existem, mas poderiam não existir. Como ensina a Bíblia,
"Nele é que temos a vida, o movimento e o ser"
(At 17,28). Isto significa ter o senso do divino e do humano.
Como proclamou o Apóstolo Tiago, "Todo dom vem do
alto e desce do Pai das luzes (Tg 1,17). Daí a lição
sublime de São Paulo: "E, se recebeste, por que haverias
de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?"(1
Cor 4,7). Eis a razão pela qual a humildade é a
virtude cristã por excelência.
Longe
de infantilizar o ser pensante ela o leva a uma aliança
com o Todo-Poderoso Senhor. Coloca-se o batizado nas antípodas
da atitude do orgulhoso, crispado na afirmação de
si mesmo numa oposição a Deus e aos outros. A humildade
torna o cristão receptivo e é um princípio
de generosidade, de disposição para o serviço.
O orgulho bloqueia o homem nos limites estreitos de seu pequeno
"eu". A humildade abre cada um à dimensão
mesma de Deus.
O
humilde, não obstante as tentações, as dificuldades
da peregrinação terrestre, avança pelo caminho
da excelência de vida e da santidade. Torna-se, por isto
mesmo, o artesão da paz consigo, com os outros e com Deus.
É que o humilde coloca em prática a diretriz do
Eclesiástico: "Humilha-te entre as grandeza do mundo
e acharás misericórdia junto a Deus" (Eclo
3,18).
De
fato, a empáfia, a altivez, a embófia tudo transtorna.
O humilde na alheta do Apóstolo Pedro se reconhece repleto
de falhas:"Sou um homem pecador" (Lc 5,8). O humilde
reconhece que somente Deus é santo e perfeito e onde está
o ser humano há erros e desvios a serem corrigidos. Modelo
excelso de humildade foi Maria a qual, não obstante cumulada
de graças extraordinárias, exclamou:"O Senhor
olhou para a humildade de sua serva". Aliás todo o
seu cântico é um poema de exaltação
à grande virtude (Lc 1,46-55).
O
humilde "descansa no Senhor e nele espera" (Sl 36,7).
Jesus deu o exemplo e aconselhou: "Tomai meu jugo sobre vós
e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração
e achareis o repouso para as vossas almas" (Mt 11,29). São
Paulo decodificou a humildade do Mestre divino e pode asseverar:"
Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo
Jesus. Ora ele subsistindo na natureza de Deus, não julgou
o ser igual a Deus um bem a que não devesse nunca renunciar;
mas despojou-se a si mesmo, tomando a natureza de servo, tornando-se
semelhante aos homens [...] humilhou-se, fazendo-se obediente
até à morte, e à morte de cruz. E por isso
Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo
o nome" (Fp 2, 5-10).
Cristo
é o protótipo do homem humilde e seu discípulo
O deve imitar. A humildade liberta o cristão da auto-suficiência,
afastando-o da idolatria de si mesmo. Sai de seu egoísmo
e pode então louvar e bendizer a Deus e servir os irmãos.
Evita todo tipo de confrontação e comparação,
valorizando os méritos alheios. O humilde se submete aos
Mandamentos de Deus e da Igreja, dado que está capacitado
a renunciar à sua própria vontade e de aderir à
de Cristo.
Disto
resulta uma profunda alegria, mesmo porque o orgulho não
produz senão inquietação e insatisfação,
conduzindo a uma subjetividade doentia. Este egocentrismo leva
a enquadrar os outros e até Deus nas categorias mentais
próprias. Aí está o motivo pelo qual o orgulhoso
se deixa levar pela revolta, cólera, pela inveja, pelo
desprezo do próximo. O orgulho é um eco da primeira
incoerência do homem que quis se colocar acima de Deus e
a conseqüência foi a perda da amizade do Criador e
da harmonia consigo e com os outros. Cumpre, por tudo isto, aprender
a ser humilde a cada dia, sobretudo através da oração
que já é em si um ato de humildade.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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