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JESUS VENCE O TENTADOR

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
Após o batismo recebido de João, Cristo quis se entregar a uma reflexão profunda e estar em tertúlia com o Pai. Foi sozinho para o deserto, lugar de encontro e experiência de Deus. Ele viera para salvar a humanidade. Tudo na sua trajetória terrena fazia parte de um admirável projeto de amor. Enquanto homem realizaria totalmente o plano divino.
      O Tentador, porém, decidiu impedir que o Redentor aceitasse livremente, sem reservas, sua sublime missão. Na sua empáfia, julgou Satanás que Jesus cairia nas garras de sua tríplice tentação até desistir do objetivo da obra salvífica. Para deixar, porém, exemplo magnífico para seus seguidores, Cristo triunfa sobre o Maligno que, derrotado, se afasta e o deixa então em paz (Lc 4, 1-13).
      Percebe-se claramente neste episódio o arco estendido que separa de Deus o pecado e Jesus que se encontrou no ponto central desta tensão. Através da História tal a situação em que se vê o ser racional. Criado pelo Ser Supremo é colocado à prova e percebe a oposição trazida pelo espírito do mal contrária aos desígnios divinos. Sabe que o pecado desfigura, mas, ao contrário do Mestre Salvador, cede tantas vezes às insinuações que levam a veredas tenebrosas. Cumpre, porém, sempre se engajar nos caminhos do exemplo messiânico de Cristo e triunfar, mediante a graça, sobre o pai da mentira.
      O Triunfador do diabo tira das sendas da maldade e orienta o cristão, resolutamente, para o caminho de seu Reino. Este é oferecido aos corajosos que se dispõem a imitar o Rabi que não se curvou perante as forças malignas. Para isto é importante a ida ao fundo do deserto do coração, lugar da reconciliação definitiva de Deus com sua criatura.
      Esta então percebe vivamente que Jesus, o vitorioso, é o novo Adão que traz a Paz interior numa harmonia perfeita com o Pai. O tempo da tentação se torna, deste modo, para o batizado o cronos de merecimentos que têm repercussão por toda a eternidade. Aliás, a quaresma é o período litúrgico no qual Deus engendra uma força renovada, fortificando o fiel na luta contínua contra o pecado. Cumpre diante das sugestões diabólicas refletir que os prazeres mundanos são passageiros e ilusórios.
      Que eles têm como companheiros o desgosto profundo e o remorso. Levam à perda do mais valioso tesouro que é a participação na vida divina. A advertência de Cristo precisa ser continuamente mentalizada: “Estai preparados, pois à hora em que menos pensais virá o Filho do Homem” (Mt 24,44). Não há ventura maior do que o coração sereno na presença do Todo-Poderoso.
      O exemplo de Jesus, o destemor dos santos são um incentivo para a fuga do mal. A rota da virtude é árdua e supõe este combate constante. Santo Agostinho ensinou que existem três fases na tentação: a sugestão, que em si não é pecado; a deleitação, ou seja, a inclinação para o mal sugerido, que não é ainda pecado, mas finalmente há o consentimento que já é a adesão ao mal. O pecado pode ser venial ou mortal, dependendo da gravidade da falta à qual se aderiu.
      Cumpre prevenir sempre a tentação, vigiando e orando, como recomendou Jesus (Mt 26,41), fugindo das ocasiões perigosas. É preciso prontamente afastar as tentações. É necessário para a prática da virtude trilhar o caminho da penitência, colocando-se o cristão em estado de conversão contínua para uma existência cada vez mais perfeita. Adite-se a mortificação, que é a disciplina dos sentidos internos e externos, da inteligência e da vontade.
      O virtuoso, com a graça divina, se desarraiga dos vícios, lutando generosamente contra cada um dos pecados capitais e suas ramificações. Se alguém se deixou levar pelo vício, a alma humilhada, mas cheia de confiança, se lançará logo nos braços da misericórdia de Deus para implorar o perdão. Se foi pecado grave, é logo procurar um sacerdote e fazer uma ótima Confissão que redime, purifica e oferece os remédios espirituais dos quais o cristão necessite. Deste modo, mesmo as faltas não são obstáculos ao progresso espiritual.

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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