A PORTA ESTREITA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cristo
não foi um prestidigitador. Ele não iludiu seus
seguidores. Eis porque falou claramente acerca do caminho da salvação:
“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque muitos,
vo-lo digo, tentarão entrar e não o conseguirão!.
(Lc 13, 24). Sua doutrina não é uma simples literatura.
Veio redimir a humanidade, abriu a entrada do céu, mas
exige uma resposta do homem a esta oferta: conversão e
fé.
Os
valores que ele aponta são opostos aos que o mundo apresenta
e o acesso à beatitude eterna não se dá através
das veredas dos prazeres terrenos, mas numa contínua volta
para Deus na perspectiva das suas promessas, numa compreensão
perfeita de tudo que se professa no Credo.
Cumpre
observar todos os acontecimentos da trajetória nesta terra
a partir das realidades futuras, não se prendendo às
futilidades comprometedoras da salvação perene.
Sem um morrer para as paixões desregradas, sem a destruição
do que há de mais distorcido dentre de cada um em virtude
do pecado original, não há comunhão com o
Ser Supremo. A demanda da porta estreita se dá quando o
cristão olha e vive a partir das realidades celestes e
caminha com Jesus que, antes de entrar na sua glória, passou
pelo Gólgota.
O
batizado que quer se salvar vive com base em critérios
que não são os apresentados pela mídia em
geral a qual prega o hedonismo, o materialismo, a ganância,
o ter sempre mais e não ser mais espiritualizado. Os paradoxos
de Jesus só podem ser entendidos quando há uma crença
profunda na vida eterna. Tal é a autêntica situação
resultante de um discipulado inteligente de quem se matriculou
na escola do Mestre divino. Tal foi a experiência vitoriosa
do Apóstolo Paulo que se sentia ironizado pelo mundo, insultado,
difamado, mas feliz no meio da aflição (1 Cor 4,
9-13).
O
epígono de Cristo não sufoca as profundas aspirações
do coração, mas sabe quebrar a ditadura dos costumes
mundanos. Nos seus seguidores o Redentor continua a sofrer para
prosseguir sua obra vivificadora. Isto significa um esforço
ininterrupto na trilha da perfeição, o não-conformismo
com o mal. Muitos, porém, deixam anestesiadas suas consciências,
enxovalhadas com as mensagens deletérias de um contexto
histórico adverso ao seguimento total dos preceitos evangélicos.
Falta, muitas vezes, a fidelidade à palavra de Deus. Cumpre
seguir, corajosamente, no caminho traçado pelo Rabi da
Galiléia, unindo-se à sua justiça.
Todo
cuidado é pouco na correspondência à graça,
para se poder passar pela porta estreita. Com efeito, “há
últimos que serão os primeiros e há primeiros
que serão os últimos” (Lc 13,30), advertiu Cristo.
Misterioso é sempre o encontro de Jesus com a alma do homem.
Poderosa a sua influência no coração arrependido.
De todas as verdades teológicas e filosóficas, uma
das mais complexas é a conciliação da liberdade
humana com a onipotência e a onisciência divinas.
O
tratado da graça é um dos mais difíceis de
toda a Teologia. Regulando nossos destinos por um sistema de sabedoria
que ultrapassa a capacidade cognoscitiva da razão humana,
o Criador assiste o desenrolar dos atos do homem e só Ele
sabe até que ponto pode chegar a malícia de cada
um para fechar definitivamente as vias do perdão e da clemência.
Como
o homem é livre, ele pode andar ou pelos caminhos aparentemente
floridos oferecidos pelo mundo ou nas veredas estreitas propostas
por Jesus, carregando com paciência a cruz de cada dia.
Nas agras regiões da vida, dificultadas pelos espinhos
da culpa, ainda que perdido no mais profundo abismo de seus erros,
sempre que num gesto de confiança, alguém se voltar
para Cristo com sincero arrependimento, imediatamente, ouvirá
a palavra de paz, de conforto, de luz, de salvação,
conquistando o Paraíso. Estejamos, porém, alertas
porque, aqueles que contemplam os prodígios da misericórdia
divina e se acham imersos nos favores celestes não podem
facilitar.
O
ser racional é livre para aceitar a Jesus ou recusá-lo.
A mensagem de Deus esclarece, os sinais feitos por Cristo indicam
sua divindade. Entretanto, nem a poderosa inspiração
divina, nem os milagres feitos por Jesus podem tolher a liberdade.
Deus quer uma persistente adesão pessoal de cada um. Não
se pode vergar ao que ditam as opiniões e os hábitos
dominantes.
É
por isto que é tão beatificante a entrega a Ele
pela fé. O pecado, contudo, impede entrar pela porta estreita
que é aberta até para os que se convertem na última
hora. O céu deve, portanto, estar sempre no horizonte do
cristão como fim último da peregrinação
terrestre, para que ele possa, um dia, passar por esta porta estreita.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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