CRISTO, REI DO UNIVERSO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No
último domingo do Ano Litúrgico se celebra a solenidade
de Cristo, Rei do universo. Desde o anúncio de seu nascimento,
o Filho único do Pai, concebido do Espírito Santo
e nascido da Virgem Maria, é rei no sentido messiânico,
conforme anunciaram os profetas. Está claro em São
Lucas: “Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo;
dar-lhe-á o Senhor Deus o trono de seu pai Davi, reinará
ternamente na casa de Jacó e o seu reinado não terá
fim (1 Lc 21-33).
Rei silencioso até seus trinta anos, vivendo, humildemente,
em Nazaré. Inaugura depois o novo Reino que, segundo Ele,
não é deste mundo (Jo 18,36). Confirma, porém,
diante de Pilatos: “Tu o disseste: eu sou rei. Para isto é
que eu nasci e para isto é que vim ao mundo para dar testemunho
da verdade” (Jo 18,37). Após sua ressurreição,
pela qual deu uma prova definitiva de sua divindade, ele pôde
dizer aos Apóstolos que todo poder lhe fora dado no céu
e na terra (Mt 28,18). Ele é o “Alpha e o Ômega [...]
o princípio e o fim” (Ap 22,13).
Como apregoou São Paulo: “Deus o exaltou e lhe deu o nome
que está acima de todo o nome, para que, no nome de Jesus,
todo o joelho se dobre nos céus, na terra, e abaixo da
terra, e toda língua proclame que Jesus Cristo é
o Senhor para glória de Deus Pai” (Fl 2, 9-11). Foi esta
sempre a missão da Igreja através dos tempos: anunciar
e testemunhar que Jesus é o Rei da História, para
que o homem, aderindo a Ele, possa se realizar em plenitude. Jesus
é um soberano que se apresenta como um rei sem palácios,
dado que Ele quer reinar é lá dentro de cada coração.
Ele deseja que seu amor seja vitorioso sobre todas as dificuldades
da vida humana e seja fonte de todas as alegrias. Trata-se de
um Rei sem exércitos, tendo inclusive sido imolado sobre
uma cruz, calando-se perante as ofensas, demonstrando continuamente
paciência e bondade. Tudo isto para mostrar que o seu reino
é de paz e amor, de perdão e misericórdia.
Embora Senhor de todas as riquezas do mundo, entretanto o seu
maior tesouro é cada um de seus redimidos, salvos não
com ouro ou com prata, mas com seu preciosíssimo sangue
(1 Pd 1,18).
Seus súditos são pecadores que sabem que Ele perdoa
sempre aquele que se arrepende, dado ser Rei de ternura infinita,
cheio que é de compaixão. Seu Reino pertence aos
pobres, aos marginalizados, aos explorados pelos poderosos. Ele
consola os aflitos em suas tristezas, envolvendo-os na sua luminosidade.
Seu reino é uma comunidade de irmãos, unidos na
fraternidade mais inefável. Por tudo isto a festa de Cristo-Rei
é um apelo a que todos sejam artesãos da paz.
Todos são responsáveis por aqueles que Cristo-Rei
ressuscitado tornou irmão seu, seja ele indigente, estrangeiro,
prisioneiro ou doente. O dom de si aos outros é condição
necessária para pertencer ao Seu império de amor.
Daí a fuga ao individualismo cômodo e toda atenção
ao outro, valorizando-o em todas as circunstâncias. Cristo-Rei
convida a perceber a dignidade do próximo como configurado
a Ele. Cristo-Rei clama por justiça num mundo de tantos
conflitos.
Mais do que nunca cumpre viver o Evangelho da Vida que Ele trouxe
a este mundo, justamente porque se está imerso numa sociedade
opulenta na qual os poderosos dominam e sugam tudo que podem para
os cofres públicos e pessoais, vivendo nababescamente,
mas deixando seus súditos na miséria e no pauperismo.
É preciso a luta contra o liberalismo econômico que
avilta a pessoa humana. Para isto é necessária uma
vida espiritual de acordo com a doutrina social da Igreja, agindo
lá onde sofrem os menos favorecidos, combatendo, sem tréguas,
em nome de Cristo-Rei, até que Ele volte no fim dos tempos,
na consumação final de seu reinado. Irradiar por
toda parte o dinamismo receptivo da espiritualidade que Cristo-Rei
difunde, é a grande tarefa daqueles que se ufanam de O
ter como único Soberano, digno de toda honra e de toda
glória.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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