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NÃO TORNES A PECAR

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
O episódio da mulher adúltera narrado por João (Jo 8, 1-12) oferece oportunidade para reflexões que merecem especial atenção com o aproximar da Grande Semana. Remete, em primeiro lugar, ao que se lê no salmo: “Se levardes em consideração, Senhor, as culpas, quem, Senhor meu, poderá subsistir?” (Sl 130 [129]) Rememora também outro conselho de Cristo: “Não julgueis e não sereis julgados! (Mt 7,1). Escribas e fariseus condenam uma pecadora, mas Jesus teve um argumento decisivo: “Aquele de vós que estiver sem pecado lance-lhe por primeiro uma pedra”.
      Deus é Pai sempre misericordioso. Ele condena o pecado, mas dá chances ao pecador para se arrepender e mudar de vida. De todas as verdades teológicas e filosóficas uma das mais complexas é a conciliação da liberdade humana com a onipotência e a onisciência divinas. O tratado da graça é um dos mais difíceis de toda a Teologia. Regulando nossos destinos por um sistema de sabedoria que ultrapassa a capacidade cognoscitiva da razão humana, Deus assiste o desenrolar dos atos do homem e só Ele sabe até que ponto pode chegar a malícia de cada um para fechar definitivamente as vias do perdão e da clemência.
      Como o homem é livre ele pode não aceitar a salvação, desejando prosseguir no erro e nas trevas, mas todas as vezes que ele se arrepende sinceramente, logo é perdoado. Um dia, assentado à beira de um poço, Cristo aguardou a Samaritana e a redimiu. Encontro sublime tantas vezes repetido em sua passagem por este mundo como ocorreu com Zaqueu, Mateus, Madalena e tantos outros. Tais encontros se prolongariam, século após século, através do mistério da graça divina a visitar as consciências.
      Na estrada de Damasco alguém que odeia a Cristo se encontra frente a frente com Ele, se penitencia e Saulo se torna o grande apóstolo Paulo. Agostinho,, por força das preces de sua santa mãe Mônica, se voltou para Deus e surgiu então o notável Mestre do Ocidente. Nas trevas de uma existência trevosa, uma jovem de Cortona na Itália, andava pelas sendas do mal. Ei-la um dia ante o cadáver de seu amante que fora assassinado. Interroga-se: “Onde estará sua alma”? Converte-se e se torna Santa Margarida de Cortona. Os fatos se multiplicam nas crônicas dos grandes convertidos.
      Nas agras regiões da vida, dificultadas pelos espinhos da culpa, devastadas pelas tempestades do pecado, ainda que perdido no mais profundo abismo de seus erros, sempre que, num gesto de confiança, alguém se dirigir a Cristo com autêntico arrependimento, imediatamente, ouvirá a palavra de paz, de conforto, de luz, de salvação.
      Em segundo lugar, o encontro do Redentor com a mulher adúltera deixa bem claro esta diretriz que Ele lhe deu: “Vai e doravante não tornes a pecar”. No arrependimento deve estar incluído o firme propósito de evitar erros futuros. Alguns cristãos julgam o Sacramento da Penitência, no qual vão buscar a anistia divina, como se fora um recurso que produz mecanicamente seu efeito. Ledo engano! Ao ir à fonte do perdão de Deus cumpre haja a resolução inabalável de fugir das ocasiões de pecado, de orar muito, de fazer mortificações oportunas.
      Assim, por exemplo, jovens que cometem imprudências no namoro ou chegam até a ter relações sexuais, se não estiverem dispostos a conversar afim de tomarem providências para não mais se darem a tais atos contra o sexto mandamento, não podem receber a absolvição sacramental.
      O mesmo se diga de pessoas casadas e que cometem adultério. Isto vale para todas as infrações dos preceitos sagrados do Decálogo. Daí a importância da Confissão pessoal com o Sacerdote que como médico, mestre e juiz poderá dar uma orientação precisa. Jesus foi claro: "Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa ". (Lc 3,8). Paulo assim expressou sua preocupação: “Mas temo que, como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim se corrompam os vossos pensamentos e se apartem da sinceridade para com Cristo". (2Cor 11,3).
      O remorso é um bom sinal, pois diz o Apóstolo: "De fato, a tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar de que ninguém se arrepende, enquanto a tristeza do mundo produz a morte" (2Cor 7,10). É salutar arrepender-se e levar outros ao arrependimento, dadoque recorda ainda São Tiago :"Saiba: aquele que fizer um pecador retroceder do seu erro, salvará sua alma da morte e fará desaparecer uma multidão de pecados". (Tg 5,20). É assim que se vive a quaresma!

                                                                  * Professor no Seminário de Mariana - MG

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