O ADMINISTRADOR INFIEL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A
parábola do administrador infiel (Lc 16,1-13) está
repleta de preciosas lições. Cumpre observa, inicialmente,
que o cerne da narrativa feita por Jesus não está
num aplauso da ação profundamente censurável
do intendente que, além de malbaratar os bens de seu senhor,
ainda o lesa para tornar propício a si mesmo os credores,
diminuindo os débitos deles.
O
que Jesus quer dizer é que, assim como os maus têm
notável capacidade para, por caminhos escusos, ganhar amigos,
os bons devem ter argúcia para obter vantagens espirituais.
Isto, até mesmo, bem se utilizando o cristão de
bens materiais, sublimando ações temporais em vistas
ao tesouro lá no céu. Deste modo, quem ampara com
o vil metal os necessitados, vendo neles a figura do Redentor,
ainda que empregando meios materiais e socorrendo o próximo
em sua fome, na sua doença e outras indigências,
está crescendo em santidade diante de Deus.
Dentro
desta linha de reflexão quantos, de fato, perdem merecimentos
imensos por não saber dar uma aplicação transcendental
às menores ações. Foi o que São Paulo
aconselhou: "Portanto, quer comais quer bebais ou façais
qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus"
(1 Cor 10,31). Quem, pela manhã, tem a intenção
de tudo fazer naquele dia para o maior louvor do Ser Supremo e
diz isto a Ele, transforma as mais simples ações
numa vibrante prece, atraindo os maiores favores divinos. Este
será fiel nas mínimas coisas, jamais sendo injusto
consigo, com o próximo e com o próprio Deus.
Trata-se
do cristão que cuida de seu corpo, por ser o templo vivo
do Espírito Santo. Entrega-se a seu labor, por vezes, até
material, mas com o reto desígnio de estar em tudo a serviço
do próximo e o próximo é o próprio
Jesus Cristo. Deseja até, honestamente, ganhar dinheiro,
mas para poder ajudar os familiares e os mais necessitados. A
perfeição do motivo que leva cada um a operar é
de vital importância. As atividades ficam impregnadas de
uma intenção sobrenatural em função
do amor a Deus e ao semelhante.
Todos
os atos lícitos praticados por quem está em estado
de graça são imensamente meritórios diante
de Deus, mas os atilados filhos da luz aumentam tal mérito,
explicitando o objetivo maior de tudo que faz, qual seja o maior
glorificação a Deus e o bem espiritual e material
do próximo. Descendo a pormenores, se pode afirmar que,
por exemplo, comer para refazer as forças, é um
ato honesto que num batizado, isento de pecado grave é
meritório. Entretanto, reparar as forças com intenção
de melhor trabalhar por Deus e pela salvação dos
outros é um objetivo superior que nobilita ainda mais este
ato material e lhe confere valor imenso aos olhos do Criador.
Os
que são espertos espiritualmente colocam até várias
intenções na sua ação e aumentam o
mérito. Por exemplo, o filho que acata a autoridade de
seus pais e lhes obedece cresceu muito perante Deus, mas quem
obedece e acrescenta a dileção a seus pais, duplamente,
entesourou para o céu. Pode-se até triplicar o merecimento.
Assim quem destesta o pecado por ser ofensa de Deus, pode ter
também a intenção de praticar ao mesmo tempo
a mortificação e a humildade, pedindo sempre o auxílio
celestial. Tudo isto é realizado sob a inspiração
do Divino Espírito Santo.
Este
modo de agir leva a uma intensidade ou fervor em tudo que se pratica.
Deste modo, se evita o desleixo espiritual e, com toda a energia
possível, se utiliza a graça que a cada hora se
recebe do alto. A indolência é, assim, banida e até
as faltas veniais desaparecem. Enchentes de favores divinos envolvem
desta maneira o autêntico cristão, visto que Deus
retribui centupliadamente tudo que se faz por Ele. Vale,
de fato, a pena renovar amiúde os esforços com energia
e total perseverança. Daí resulta o júbilo
de que fala o Apóstolo: Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito:
alegrai-vos!" (Fl 4,4). Este é aquele que não
serve a dois senhores, mas somente a Deus e, para aqueles que
amam a Deus. Tudo coopera para a sua total felicidade (Rm 8,28).
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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